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"Un espacio para la difusión de la cultura africana, una invitación a descubrir y desmitificar juntos su diversidad de historias y saberes"

Morreu líder da Frente Polisário Mohamed Abdelaziz

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VOA PORTUGUES

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O secretário-geral da Frente Polisário e presidente da República Árabe Sarauí Democrática (RASD), Mohamed Abdelaziz, morreu na terça-feira, 31, aos 68 anos, vítima de doença prolongada.

Em nota, o movimento independentista pediu um período de luto de 40 dias, após o qual um novo secretário-geral será escolhido.

Na Argélia, o presidente Abdelaziz Bouteflika decretou luto de oito dias e abriu a reunião de um Conselho de Ministros com um minuto de silêncio em homenagem ao líder independentista.

“É uma grande perda para o povo saharaui”, disse à AFP Mohamed Keddad, dirigente do movimento, lembrando que “ele sacrificou a sua vida pela libertação do Saara Ocidental, incorporou a sabedoria, a ponderação, o compromisso sincero e firme pela libertação do Saara Ocidental”.

Em Fevereiro passado, Mohamed Abdelaziz apareceu enfraquecido ao receber o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, num campo de refugiados em Tindouf, na Argélia, que indiciava estar doente.

O dirigente histórico da causa da independência do Saara Ocidental, Mohamed Abdelaziz nasceu na cidade de Smara a 17 de agosto de 1947, parte do então Saara espanhol, e estudou Medicina na Universidade de Marrocos.

Depois de proclamada a República Árabe Sarauí Democrática, a 27 de Fevereiro de 1976, foi eleito a 9 de Junho sucessor do primeiro secretário-geral da Frente Polisário e reeleito desde então para o cargo 11 vezes, a última das quais em 2011.

Marrocos sempre considerou o Saara Ocidental como parte integrante do seu território.

Um plano da ONU para um referendo de autodeterminação nesse território continua bloqueado desde 1992 por Marrocos, que defende uma ampla autonomia sob a sua soberania.

A Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO) supervisiona desde então um cessar-fogo oficialmente proclamado pela Frente Polisário em setembro de 1991.

ANGOLA – SEGURANÇA DE ESTADO AVISA: “VAI-VOS (AO F8) ACONTECER O MESMO” (II)

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ameacas

Por Folha 8

Ameaças anónimas são habituais. Fazem, aliás, parte da galeria de troféus de qualquer jornalista que teime, como é o caso aqui no Folha 8, em dar voz a quem a não tem. Desta vez foram mais uma série delas, tomando como exemplo o que aconteceu ao jornalista brasileiro Marcos de Barros Leopoldo Guerra.

Recordemos o caso. O jornalista Marcos de Barros Leopoldo Guerra, que usava um blogue na Internet para denunciar casos de corrupção em Ubatuba, pequena cidade do estado de São Paulo, no Brasil, foi assassinado.

De acordo com estatísticas divulgadas recentemente em Genebra, pela organização Press Emblem Campain – que apela aos governos para proteger os jornalistas e punir quem os ataca -, o Brasil teve quatro profissionais assassinados este ano, e é o décimo país do mundo mais perigoso para quem trabalha nos media.

Por mail e por sms, os servos de alguém que tem uma noção de democracia e de Estado de Direito similar à da Coreia do Norte, aproveitou a época natalícia para nos avisar que “vai-vos acontecer o mesmo”.

O regime já elaborou o seu plano e já estão contratados os assassinos, para eliminar sem deixar rastos, pelo menos dois jornalistas do F8.

“Como eles não querem vender o órgão, vamos acabar com a cabeça, para imobilizar o corpo todo, pois continuam a fazer estragos na imagem do camarada Presidente e do governo”, lê-se num informe dos Serviços de Inteligência.

Os visados na chacina planeada ao pormenor para 2015, planificada pelo regime de Eduardo dos Santos e sem que esta possa escudar-se num eventual desconhecimento, são habituais, nomeadamente, o nosso director, William Tonet “pela rudeza dos escritos, no seu jornal, onde não falta a regularidade de publicação de segredos do Estado, calúnia e difamação, contra o camarada Presidente José Eduardo dos Santos, sua família e dirigentes do partido, o MPLA e membros do governo”, justificam, no documento considerado SECRETO, os algozes da Segurança, para legitimar o plano macabro, depois da UGP (Unidade da Guarda Presidencial), exército reconhecidamente privado e ilegal à luz de um Estado de Direito, de José Eduardo dos Santos, ter falhado a sua morte, com o “abalroamento” da sua viatura no dia 29 de Setembro de 2013, na zona do Morro Bento, em Luanda.

O tom ameaçador subiu, na véspera do Natal, após publicação de uma entrevista concedida no Semanário Crime, onde William Tonet aborda com frontalidade questões do 27 de Maio de 1977, revelando pela primeira vez, que Angola ganharia mais caso se tivesse efectivado um golpe de Estado, liderado por Nito Alves.

Considerou, também, danosa a gestão e consolado do actual Titular do Poder Executivo, José Eduardo dos Santos, à época coordenador da Comissão de Inquérito, que não ouviu nenhum dos acusados.

O segundo é o jornalista, Orlando Castro – Chefe de Redacção -, acusado de dar vazão ao clamor dos cidadãos de Cabinda, logo promotor da tese independentista.

Ledo engano.

A nossa missão é informar e abordar, quando questionados os temas com frontalidade, fruto da manutenção da nossa independência individual. Estamos, aliás, convictos de só a verdade pode curar, por muito dolorosa que seja. Não somos, corrobore-se, responsáveis pelo facto de o Presidente José Eduardo dos Santos preferir ser assassinado pelo elogio do que salvo pela crítica.

Os assassinos, que nos ameaçam matar e atirar aos jacarés em 2015, fazem-no sempre em português escorreito, atiram a pedra e escondem a pata. Normal, portanto. Há muito que a cobardia assim funciona.

Como o nosso compromisso sagrado é apenas com o que pensamos ser a verdade, a luta é contínua e a (nossa) vitória será acertada, na democracia real, mesmo que alguns tombem pelo caminho. Talvez de derrota em derrota até à vitória final.

Recordemos agora e sempre Frei João Domingos quando afirmou que os políticos e governantes angolanos só estão preocupados com os seus interesses, das suas famílias e dos seus mais próximos.

“Não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida”, disse Frei João Domingos, acrescentando “que muitos governantes que têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”.

Por tudo isso, Frei João Domingos sempre chamou a atenção dos angolanos, de todos os angolanos, para não se calarem, para “que continuem a falar e a denunciar as injustiças, para que este país seja diferente”.

Tendo em conta a crise de valores em que o país se encontra, Frei João Domingos sempre recomendou aos angolanos sem excepção para que pratiquem os valores que Jesus Cristo recomenda: solidariedade, justiça, amor, honestidade, dedicação ao outro, seriedade, paz, a vida, etc.

“O Povo sofre e passa fome. Os países valem pelas pessoas e não pelos diamantes, petróleo e outras riquezas”, dizia também Frei João Domingos.

O nosso país continua a ser palco de violações dos direitos humanos, nomeadamente contra todos aqueles que se atrevem a pensar de forma diferente do que está estabelecido pelo regime.

São muitos os relatos de violência, intimidação, assédio e detenções por agentes do Estado de indivíduos alegadamente envolvidos em crimes contra a segurança do Estado, ou seja, que pensam de forma diferente.

Por tudo isto, o Folha 8 continua de pé perante os donos do poder em Angola, aceitando – eventualmente – ficar de joelhos apenas perante Deus. É claro que, segundo o regime, José Eduardo dos Santos é um “deus”, mas perante esse e os seus capangas estaremos sempre de pé, por muitas e graves que sejam as ameaças.

Kofi Annan: Resposta internacional ao Ébola foi lenta por crise ter começado em… África

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Os países ricos foram lentos em reagir à epidemia do vírus Ébola, por esta ter começado em África, critica o antigo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan.

“Estou profundamente desapontado pela resposta (…). Estou desapontado por a comunidade internacional não se mexer depressa”, disse Kofi Annan a um programa de referência da BBC, o Newsnight.

“Se a crise tivesse começado em outra região, provavelmente teria sido gerida de forma muito diferente. De facto, se se vir a evolução da crise, a comunidade internacional acordou realmente quando a doença atingiu a América e a Europa”, especificou.

Este diplomata ganês, que liderou a ONU durante uma década, até 2006, disse que deveria ter sido evidente que o avanço do vírus para fora de África, a partir do seu epicentro, era apenas uma questão de tempo.

*** O presente texto foi fornecido por nosso amigo e colaborador, o Jornalista Orlando Castro.

CIDADÃOS PEDEM REALOJAMENTO CONDIGNO APÓS EXPOLIO DAS SUAS CASAS

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Cerca de 700 famílias instaladas à força nas tendas do bairro Areia Branca, depois de terem sido espoliadas das suas antigas terras e casas, na zona da Ilha de Luanda, onde a elite do regime, com os filhos presidenciais a cabeça vão instalar multimilionários condomínios, exigem um pouco de sensibilidade humana, ao Governo da Província de Luanda, liderado por um membro do bureau político do MPLA, Bento Bento, para os realojar em residências condignas, para seres humanos viverem

TEXTO DE ANTUNES ZONGO – Folha 8

Os autóctones residentes no bairro Areia Branca Povoado solicitam o “bom” senso do Executivo de Bento Bento para o prometido realojamento em casas condignas, em qualquer local da província, como forma de não continuarem a viver com o drama da sua “expulsão” compulsiva da Ilha de Luanda. “Fomos corridos como se fossemos bois, transportados em camiões de areia, pior que no tempo do colono. Aliás o MPLA está a dar continuidade e da pior forma o que o colonialista português nos fazia”, acusa o ancião mateus Vambi, no pedestal dos seus 75 anos de idade.

FUENTE: fullremix.netEstes autóctones despidos de capacidade financeira para adquirir casas ou outros terrenos, estão atados e, ao que parece, condenados a viver pior que os cães dos governantes, em tendas rotas e que são uma porta aberta para a entrada das águas das chuvas que se avizinham.

“Ademais aqui onde nos desterraram não existem escolas, hospitais, luz eléctrica e água potável, mas vimos a ser esbanjado milhões de dólares para a festa do presidente da República. Acredito que só o dinheiro do bolo do presidente serviria para resolver o problema de luz aqui no bairro”, asseverou Vambi.

O local é ladeado por duas valas de drenagem, inundadas de lixo e mosquitos face a actual realidade, o que faz os moradores lembrarem-se com lágrimas no canto dos olhos das suas anteriores habitações com as minímas condições.

“Para nossa desgraça, quando pensávamos star tudo bem, eis que por volta das 00h:20 min, do dia 01.06.13, o bairro foi assaltado por uma equipa incalculável de Fiscais, Polícias de Intervenção Rápida, Brigada Canina e o Exército, todos ostensivamente armados, para nos expularem, sem aviso prévio, nem diálogo do local”, lembrou António Barroso, antigo morador da Ilha de Luanda.

Na sua opinião, a UGP e os Serviços de Defesa e Segurança do Estado cercaram todo o perímetro da circunscrição e ao amanhecer, orientaram as outras tropas, para fazerem o trabalho sujo de retirada compulsiva dos moradores, muitos sem a possibilidade de retirarem os pertences pessoais e os móveis de casa, vendo desta forma o derrube de toda uma vida digna de trabalho e luta.

“Os vizinhos que tinham familiares e amigos para os albergar, saíram do local, mas nós ficamos por não termos a quem recorrer”, lembrou António Barroso.

É por demais cediço a forma bruta de actuar dos operativos dos órgãos de Defesa e Segurança quando mandatados por “ordens superiores” a actuar contra autóctones pobres, no caso, alguns barbaramente espancados, enquanto “outros vizinhos acabaram por morrer nas mãos dos referidos operativos da Polícia e do Exército”, contou, acrescentando “já sofremos tanto, pedimos ao GPL que quando nos retirar daqui, que respeite e ponha em prática o espirito e a letra do artigo 23º da Constituição da República de Angola, que garante sermos todos iguais perante a Constituição e a Lei”, aflorou outro morador.

“PRAVDA NEGA PUBLICAR DIREITO DE RESPOSTA”
“O Jornal de Angola negou-se a publicar o nosso direito de resposta, numa altura que fomos atacados injustamente”, denunciou um dos moradores da Areia Branca Povoado, acusando este órgão de ser cúmplice de injúria e difamação, perpretada pela Administradora adjunta para a área técnica do Distrito urbano da Samba, Madalena Manuel, na entrevista do 30.08.14, onde esta afirma estarem as famílias, no local à revelia depois de expulsas do sector A, também conhecido por bairro Areia Branca, onde construíram moradias sem a autorização das autoridades.

“Eles, por serem teimosos e oportunistas, alojaram-se ali sem as mínimas condições de habitabilidade possível, depois de terem sido expulsos de uma outra área da Kinanga”, acentuou Madalena Manuel, acrescentando que estão no local inclusive famílias que vivem noutros bairros.

Quando se aperceberam que a população da Areia Branca ia ser desalojada, tão rápido apareceram e construíram também os seus casebres no intuito de ganharem casas distribuídas pelo Governo. Temos provas disso”, declarou Madalena Manuel, em entrevista ao Jornal de Angola.
Por sua vez, os acusados classificam de infundadas as alegações da governante e avançam: “ela nunca foi ao nosso bairro, logo está desinformada”, disse contrariando a versão da governante de viverem na zona 4000 famílias.

“Isso também é mentira, somos somente 700 famílias, dados apurados pelos fiscais do GPL e pela comissão de moradores da Samba pequena”, asseverou Barroso.

“A mesma disse ainda na entrevista, que a maioria das mortes ocorridas na zona é consequência do excessivo consumo de álcool e que temos uma escola de quatro salas de aulas com quadro de papelão, no qual, os professores escrevem com carvão. Isso é pura mentira, a escola que ela se refere funciona no interior da comissão de moradores, os quadros que temos é de contraplacado de cor preta, e usamos o mesmo tipo de giz usados nos institutos médios do país, todos os meios escolares usados pelos professores e alunos, foi-nos doado pela Associação de algumas igrejas cristãs, onde se perfilam a IURD, Bom Deus e Assembleia de Deus Pentecostal”.

Um outro membro da comissão de moradores disse; “quanto as mortes, ela não é médica-legista, e nunca se fez uma autópsia que apontasse o álcool como causa das mortes no bairro”, estando sim provado que por incúria do governo, as valas de drenagens, as valas e buracos de água, associados ao lixo geram mosquitos e outros insectos, estes provocam pneumonia, diarreia, malária, paludismo e febre tifoide, e “são estas as doenças frequentemente diagnosticadas,pelo Centro médico da Kinanga ou hospital Josina Machel”, recordou.

Portanto, com objectivo de repor a verdade dos factos mediante o contraditório, os moradores da Areia Branca Povoado acorreram ao Jornal de Angola, onde a administradora directamente os acusou, “mas nos disseram que a jornalista que fez a entrevista não se encontrava na redacção e, nem que deixássemos o direito de resposta, não seria publicado”, contaram.

Os vizinhos que tinham familiares e amigos para os albergar, saíram do local, mas nós ficamos por não termos a quem recorrer

Aniversário do mestre Tamoda – Nonagenário de UANHENGA XITU

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Se estivesse vivo, o escritor completaria 90 anos, no passado dia 29 de Agosto. De feliz memória, Agostinho André Mendes de Carvalho ou melhor Uanhenga Xitu deixou um legado que se vai transferir para as várias gerações, destacadamente no âmbito político, como figura de proa do nacionalismo angolano e no âmbito cultural, como um dos escritores de maior referência do nosso panorama literário.

Por João Papelo em Folha 8

uanhenga“Mestre” Tamoda foi um dos primeiros livros de Uanhenga Xitu. Esta personagem de ficção angolana é ainda o motivo do livro Os Discursos do “Mestre” Tamoda: vai da zona rural, para a cidade, para casa de pessoas da sociedade colonial, e o que ali aprende, a ler e a escrever, e os vocábulos mais difíceis que encontra em dicionários, transportará depois consigo de regresso a aldeia. Com a sua nova linguagem, projecta naquele seio rural a sua intelectualidade, ensinando aos jovens o poder da palavra, mesmo de palavras por ele inventadas e com as quais eram desafiadas as autoridades coloniais – o professor oficial e o administrador. Todavia, a Mestre Tamoda não chegaria o saber de cor os dicionários, o falar como o colono para se libertar da condição de ser mais um dos nativos subjugados.

BIOGRAFIA

Uanhenga Xitu (Agostinho André Mendes de Carvalho) nasceu em 1924 em Calomboloca (Icolo e Bengo). Em 1959 foi preso pela polícia política portuguesa e enviado para o campo de concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, onde permaneceu vários anos e onde começou a escrever os seus contos. Após a independência de Angola, foi Governador de Luanda, Ministro da Saúde, Embaixador na Alemanha e Deputado à Assembleia Nacional. Faleceu numa quinta-feira, a 13 de Fevereiro do corrente ano, vítima de doença.

NADINE GORDIMER: UMA VIAGEM SEM REGRESSO

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Publicado no Jornal Folha 8

 

Por Simão Souindoula*

Testemunhando desde cedo a repressão do regime sul-africano – ainda adolescente, viu a polícia invadir a casa paterna para confiscar cartas e outros documentos do quarto de um criado –, a obra de Nadine Gordimer viria quase toda ela a lidar com questões éticas e morais, e em particular com o fenómeno do racismo.

 

nadineA escritora sul-africana Nadine Gordimer (1923-2014), prémio Nobel da Literatura em 1991 e uma das mais influentes vozes contra a segregação durante o regime do appartheid, morreu aos 90 anos. Um comunicado da família informa que a autora “morreu pacificamente” na sua casa de Joanesburgo, na presença dos seus filhos Oriane e Hugo.

Gordimer publicou dezenas de romances e livros de contos, muitos deles retratando a África do Sul durante o regime do appartheid. Em 1974, venceu o Booker Prize com The Conservationist (O Conservador, Asa), protagonizado pelo anti-herói Mehring, um sul-africano branco e rico que vai beneficiando dos privilégios que o regime lhe confere enquanto se debate com o crescente sentimento de que a sua vida carece de verdadeiro sentido.

Nadine Gordimer estreou-se como contista ainda nos anos 40 e publicou o seu primeiro romance, The Lying Days, em 1953. Quando recebeu o Nobel da Literatura, a Academia Sueca justificou a escolha afirmando que a “magnífica escrita épica” da romancista sul-africana trouxera “um grande benefício para a Humanidade”, uma expressão utilizada pelo próprio Alfred Nobel.

Nascida a 20 de Novembro de 1923 em Springs, uma cidade mineira dos arredores de Joanesburgo, Gordimer era filha de um fabricante de relógios letão e de uma inglesa de origem judaica. Foi educada numa escola católica e chegou a frequentar durante um ano a Universidade de Witwaterstrand, que viria a atribuir-lhe, em 1984, um doutoramento honorário em Literatura pela sua “enorme contribuição para a literatura e para a transformação da África do Sul”.

Testemunhando desde cedo a repressão do regime sul-africano – ainda adolescente, viu a polícia invadir a casa paterna para confiscar cartas e outros documentos do quarto de um criado –, a obra de Nadine Gordimer viria quase toda ela a lidar com questões éticas e morais, e em particular com o fenómeno do racismo.

Tinha 15 anos quando publicou no suplemento juvenil de um jornal, em 1937, o seu primeiro conto. O seu livro de estreia, Face to Face, um volume de contos, saiu em 1949.

Amiga de Mandela

Aos trinta anos, publicou o primeiro de 15 romances, The Lying Days, um livro com uma forte componente autobiográfica, cuja acção decorre na sua cidade natal, Springs, e que narra o modo como uma jovem branca confrontada com a injustiça da divisão racial vai adquirindo uma consciência política.

Gordimer é autora de mais de vinte volumes de histórias breves, mas é mais conhecida pelos seus romances, que incluem títulos como A Guest of Honour (1970), que ganhou o prémio James Tait Black, da Universidade de Edimburgo, o já referido O Conservador (1974), July’s People (A Gente de July, Teorema), de 1981, no qual Gordimer imagina uma sangrenta revolução da maioria negra do país contra a minoria branca no poder, ou o mais recente The Pickup (O Engate, Texto Editora), de 2005, que trata temas como o desenraizamento, a emigração, as diferenças de classe e a fé religiosa através de um casal formado por uma mulher branca de uma família abastada e um árabe que vive ilegalmente na África do Sul. Quando o homem é obrigado a regressar ao seu país, a mulher acompanha-o e é ela que então experimenta o sentimento de se ser uma estranha em terra e cultura alheias.

Vários dos seus livros foram proibidos na África do Sul, como o seu segundo romance, A World of Strangers (Um Mundo de Estranhos, Difel), de 1958, ou Burger’s Daughter (A Filha de Burger, Asa), de 1979. A Gente de July, com as suas descrições de sul-africanos brancos perseguidos e assassinados por revoltosos negros, conseguiu mesmo ser banido do ensino já depois da queda do apartheid.

Gordimer aderiu ao Congresso Nacional Africano (ANC) quando a organização era ainda ilegal e, embora tenha sido sempre uma militante crítica, via no ANC a melhor esperança para derrubar o apartheid. A sua actividade cívica e política levou-a a travar conhecimento com os advogados de Nelson Mandela, e colaborou mesmo na redacção do discurso de defesa que o futuro presidente da África do Sul apresentou em tribunal em 1962, intitulado Estou Preparado para Morrer. Mandela leu mais tarde a A Filha de Burguer na prisão e, quando foi libertado, em Fevereiro de 1990, pediu para conhecer a autora. Ficaram amigos e enquanto Mandela foi vivo mantiveram contactos regulares.

Gordimer participou regularmente em manifestações contra o racismo e a repressão na África do Sul e aproveitou a notoriedade que os seus livros lhe trouxeram para denunciar sistematicamente o regime junto da opinião pública internacional.

Simão Souindoula:

Director of the Program “Angolan Road of Slavery”

Touristic and Historical – Cultural Project Kanawa Mussulo

CABO VERDE CRIA MUSEU AMÍLCAR CABRAL

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Jornal Folha 8 – Angola

Um museu em homenagem a Amílcar Cabral será fundado em Cabo Verde com o objectivo de valorizar e divulgar o legado escrito do pai da identidade cabo-verdiana.

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O anúncio foi feito pelo presidente da Fundação Amílcar Cabral, o ex-chefe de Estado cabo-verdiano Pedro Pires, durante a apresentação pública do “Memória sem Confins – A Descoberta de Cabo Verde”, que vai ser levado a cabo pela instituição em parceria com a Fundação Lelio e Lisli Basso da Itália.

Este projeto é financiado pela União Europeia (UE) num montante de 274 mil e 500 euros no âmbito do programa temático para actores não estatais e autoridades locais no desenvolvimento (Promoção da Cultura 2013).

Pedro Pires revelou que o Museu Amílcar Cabral contribuirá para dignificar, valorizar e prestar a devida atenção à divulgação do legado escrito do fundador e líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), a força política que conduziu à luta de libertação dos dois países contra o colonialismo português.

Cumulativamente, pretende-se também dotar a cidade da Praia de mais um centro de atração dos seus munícipes e dos seus visitantes, disse Pedro Pires, esclarecendo que o projecto será promovido em parceria com a Câmara Municipal da Praia (CMP) com o apoio do Governo.

O antigo Presidente da República de Cabo Verde (2001-2011) esclareceu que o museu é o contributo que a Fundação Amílcar Cabral pretende dar para a “superação” dos diversos e “complexos” desafios que o desenvolvimento turístico cultural coloca e faz parte de um conjunto de ações que o projeto “Memória sem Confins – A Descoberta de Cabo Verde” pretende levar a cabo em 24 meses da sua implementação.

“Neste projeto há o lado da preservação e tratamento da documentação e, por outro lado, há o fornecimento pela Fundação Lelio e Lisli Basso da documentação adicional que não tínhamos, sem esquecer o lado formativo que é fundamental, porque ainda os nossos guias turísticos não dominam certos conhecimentos do turismo cultural em relação à própria história”, explicou.

Neste sentido, ele aponta que a criação duma seção museológica sobre a memória, formações, realização de um itinerário turístico cultural são algumas das atividades que o projeto pretende levar a cabo para preservar a memória e combater as dificuldades económicas no país, ao contribuir para o “reforço” da valorização cultural e, por outro lado, oferecendo novos recursos culturais e turísticos culturalmente “atrativos e competitivos”.

“O objectivo é agir junto dos atores na área do turismo para que o façam da melhor maneira, apresentem Cabo Verde da melhor maneira e que a identidade e a cultura cabo-verdiana sejam melhor conhecidas”, precisou o ex-Presidente cabo-verdiano.

Ler ainda é uma miragem para 40% das crianças da África Subsaariana

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Por Orlando Castro

 escola

Cerca de 250 milhões de crianças no mundo não estão aprendendo a ler, revela um relatório da UNESCO, alertando que a educação está em crise, com os governos a precisarem de perto de 129.000 milhões de dólares anualmente.

Um ensino inadequado em todo o mundo deixou um legado de analfabetos mais generalizado do que se pensava inicialmente, avança o relatório anual da UNESCO.

O documento informa que uma em cada quatro crianças nos países pobres não consegue ler uma frase, com a percentagem a elevar-se para 40% nos países da África Subsaariana.

“Qual é o sentido da educação se as crianças após cinco anos na escola saem sem as habilitações que precisam?”, questiona Pauline Rose, responsável pelo relatório de cerca de 500 páginas sobre Educação Global.

Num terço dos países analisados, menos de três quartos dos professores do ensino primário existentes foram treinados para normas nacionais, enquanto 120 milhões de crianças em idade primária em todo o mundo tinham pouco ou nenhuma experiência escolar, de acordo com o relatório.

“Nos últimos dez anos, as pessoas que vivem nos grupos mais marginalizados continuaram a ser privadas de oportunidades educacionais”, frisou Pauline Rose no documento.

Trinta e sete países monitorizados pelo relatório estão a perder pelo menos metade do montante que gastam em educação primária, porque as crianças não estão a aprender, revela a UNESCO.

Em países desenvolvidos como França, Alemanha ou Reino Unido, os filhos de imigrantes ficam atrás dos seus pares, realizando muito pior as metas mínimas de aprendizagem. Também grupos indígenas na Austrália e Nova Zelândia enfrentam problemas semelhantes, revela o relatório.

“O acesso não é a única crise – a má qualidade está a atrasar a aprendizagem daqueles que conseguem ir à escola”, escreve a directora geral da UNESCO, Irina Bokova, no prefácio do relatório.

Cerca de 250 milhões de crianças em todo o mundo não aprendem o básico, segundo o documento, que lembra que em 2011 havia 57 milhões de crianças fora da escola, metade das quais em países afectados por conflitos.

Para ser alcançada uma melhoria, é necessário “professores competentes”, argumenta o relatório, chamando os governos “a formar e a colocar os melhores disponíveis para aqueles que mais precisam”.

Os professores devem receber formação inicial que combine “o conhecimento dos assuntos a serem ensinados com o conhecimento dos métodos de ensino”, bem como formação sobre “como concentrar a ajuda às crianças desfavorecidas”.

O relatório recomenda ainda que os professores sejam colocados “em áreas onde a ajuda é mais necessária, criando incentivos para que se comprometa a educação a longo prazo, como “um salário que corresponda, pelo menos, às suas necessidades básicas, boas condições de trabalho e uma oportunidade de carreira”.

“Novos Ricos são como a cerveja tirada à pressão: num instante, mas a maior parte é só espuma” – Mia Couto

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Lisboa – Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem geradinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.

Fonte: Mia Couto

“Novos Ricos angolanos”: São nacionais só na aparência porque estão prontos a serem moleques de estrangeiros

Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

mia couto

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas.

O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.

Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes.

Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados às pressas, não se sentem bem na sua própria pele. Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos.

Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores. Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado “a luta pelo progresso”? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.

São nacionais mas só na aparência. Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros.

Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode irás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem crianças que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal. Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem.

Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida.

Uma parte da nossa elite está pronta para realizar esse suicídio histórico.

Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento.

Regime angolano quer assassinar o “Folha 8”

Padrão

Orlando Castro
Jornalista, Editor de Política do jornal “Folha 8”

Coisas tão banais como casa, saúde, educação, comida, não são preocupações essenciais para os que dirigem o país. E é por isso que no nosso país há muitos que vivem para roubar e outros que roubam para viver.

folha 8

O Ministério da Comunicação Social (MCS), reflectindo desde logo pela sua própria existência a distância que nos separa de um democracia e de um Estado de Direito, entende que nós aqui no “Folha 8” devemos corrigir, imediatamente, a nossa conduta, porque, diz, apelamos desordem pública e mesmo à sublevação.

“O Ministério da Comunicação Social adverte que, em caso de não acatamento desta decisão, essas medidas de correcção podem culminar na suspensão temporária das emissões da Rádio Despertar, até decisão definitiva dos órgãos judiciais, assim como do Semanário Folha 8”, lê-se num comunicado oficial hoje divulgado em Luanda.

Curiosamente, o MCS reitera o engajamento na defesa intransigente da liberdade de expressão e de imprensa, consagradas na Constituição, e incentiva todos os órgãos de comunicação  social do país a prosseguirem no cumprimento da sua linha editorial, no quadro da ética e deontologia profissionais.

Se o jornalista não procura saber o que se passa é um imbecil. Se sabe o que se passa e se cala é um criminoso. O regime sabe que no “Folha 8” esta é uma regra de ouro. É, aliás, uma regra comum em qualquer democracia ou Estado de Direito. Se não pode ser aplicada em Angola talvez seja, salvaguardemos a impoluta e divina análise do MCS, porque o nosso país ainda não é uma democracia e um Estado de Direito.

Sabemos que o MCS advoga a liberdade de Imprensa, sendo essa tese que levou – por exemplo – a que a nossa Redacção fosse há pouco mais de um ano (12 de Março de 2012) invadida por cerca de 15 homens  da DNIC – Direcção Nacional de Investigação Criminal  sob mandato da Procuradoria Geral da Republica.

Bem vistas as coisas, ao mesmo tempo que alguns ditadores (ainda poucos, é certo) vão caindo, o mundo dito (nem sempre é verdade, mas…) democrático gera outros e aguenta alguns que ainda não passaram de bestiais a bestas.

O  governo angolano não tem tido vontade, embora tenha os meios, para resolver os problemas de água, luz, lixo, saúde, trabalho, habitação e educação dos angolanos. A juventude não tem casa, não tem educação, emprego e não tem futuro. Os trabalhadores têm salários em atraso e não conseguem obter crédito bancário.

E quando algum jornal resolve dizer, mesmo que com alguns excessos, estas verdades entra imediatamente na linha de fogo do regime. O “Folha 8” está nessa linha há muito, muito tempo. Todos sabemos que a fase do mata primeiro e pergunta depois está para breve.

Coisas tão banais como casa, saúde, educação, comida, não são preocupações essenciais para os que dirigem o país. E é por isso que no nosso país há muitos que vivem para roubar e outros que roubam para viver. É claro que dizer isto é, de acordo com a noção de liberdade de Imprensa do regime, um crime.

Todos sabem, até mesmo os mais altos dirigentes do país, que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Dizemos nós como dizem as mais sérias e credíveis organizações internacionais. No entanto,  como o regime não pode calar essas instituições, tenta calar a qualquer preço os mensageiros internos.

Só em ditadura, mesmo que legitimada pelos votos comprados a um povo que quase sempre pensa com a barriga (vazia) e não com a cabeça, é possível estar tantos anos no poder. África é um alfobre constante e habitual de conflitos armados porque a falta de democraticidade obriga a que a alternância política seja conquistada pela linguagem das armas. Há obviamente outras razões, mas quando se julga que eleições (quando as há) são só por si sinónimo de democracia está-se a caminhar para o que Angola é hoje. Uma democracia de jure que não de facto.

No nosso caso, a guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau. Permitiu ao actual presidente perpetuar-se no poder, tal como permitiu que a UNITA dissesse que essa era (e pelo que se vai vendo até parece que teve razão) a única via para mudar de regime.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão. E quando, como é o caso do “Folha 8”, alguém procura dar voz a quem a não tem, os arautos da liberdade de Imprensa “made in MPLA” pegam na pistola.

Não é, reconheça-se, difícil compreender a posição daqueles que consideram o nosso regime como o mais puro, vernáculo, impoluto e honorável exemplo de democracia. De facto, sendo Angola um país muito rico, é muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

É, como agora acontece, muito mais fácil negociar com um núcleo restrito de pessoas que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

A partir  do momento em que deixou de ter Jonas Savimbi como bode expiatório para tudo, o regime arranjou outros alvos. Um deles foi a Imprensa que, apesar das dificuldades, ainda vai dizendo algumas verdades. Daí a razão pela qual, mais uma vez, os donos do país querem calar o “Folha 8”.

Desde 2002, o presidente vitalício (ao que parece) de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente quase todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

E quando aparecem pessoas como os jornalistas do “Folha 8” que não estão à venda, e que por isso incomodam e ameaçam o regime, há sempre forma de os fazer chocar com uma bala, mesmo quando está chega acompanhada com um cartão que diz “a bem da liberdade de Imprensa”.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes de qualquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que o regime tenha cada vez mais seguidores, sejam militares, políticos, empresários ou jornalistas.

É claro que, enquanto isso, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois… com fome. E a fome, a miséria, as doenças, as assimetrias sociais são chagas imputáveis ao Poder.

Vale, ao menos, que a equipa do “Folha 8” consegue dar voz a quem a não tem. O regime sabe que a verdade dói, mas ainda não compreendeu que – apesar disso – só ela pode curar.

É verdade que o regime pode fazer quase tudo o que lhe apetece. Mas a dignidade dos jornalistas do “Folha 8” ele não pode tirar. Nem o facto, que certamente o incomoda, de o “Folha 8” fazer parte da História de Angola e da Lusofonia, seja quem for que a venha a escrever.

Não é que o regime se preocupe muito com isso. E o caso do comunicado do Ministério da Comunicação Social sobre o “Folha 8” revela que o regime ainda tem mais trunfos. A fase do mata primeiro e pergunta depois está mesmo para breve.