Arquivo da categoria: Costa do Marfim

A CONTRA-ROTA BRASILEIRA DA ESCRAVATURA – RETORNADOS CONGOS-ANGOLA TORNARAM-SE AGUDAS

Padrão

Por Simão SOUINDOULA

E, em filigrane, o que transparece da leitura da obra “Negros, Estrangeiros. Os escravos libertos e a sua volta a Africa”, da autoria de Manuela Carneiro Da Cunha, livro que acaba de ser reestampado, em São Paulo, na sua segunda remessa, revista e ampliada, na Editora Schwarz e inserida na sua coleção Companhia das Letras.

Estalando-se em 279 páginas, particularmente, densas, o volume e estruturado numa dezena de articulações nas quais são abordados a evolução das modalidades de alforria dos africanos escravizados no Brasil; o seu estatuto social, jurídico e político, francamente, hibrido, e a conturbada história do seu retorno para a “Costa dos Escravos”, singularmente, na cidade de Lagos.

Analisa, ai, a origem étnica dos melano – brasileiros, regressados, as suas atividades laborais, opções politicas, preferências culturais e praticas religiosas.

Replica, para o essencial, da sua tese de doutoramento, a antiga Professora nas Universidades de São Paulo e Chicago, fornece, em anexo, um quadro cronológico da temática tratada e um conjunto de referências bibliográficas, nas quais nota-se estudos de Stuart B. Schwartz, “The mocambo: Slave resistance in colonial Bahia” (1970) e “Bresil, le royaume noir des mocambos” (1982).

A autora inclui no seu trabalho um generoso desdobramento iconográfico no qual reencontramos, entre outras estampas, as, famosas, do alemão Johan Moritz Rugendas, retratos de cativos angola, benguela, cabinda, congo, monjolo e rebolla (libolo?).

Nota-se o prefácio, para esta segunda edição, redigido pelo historiador Alberto da Costa e Silva, que foi Embaixador do Brasil no Benim e na Nigéria e membro do Comité Cientifico Internacional do Projeto da UNESCO da “Rota”.

REGRESSO ERRADO

Envolvidos em circunstâncias, perfeitamente, incontroláveis, muitos “malungos” pararam, em vez, da Cote d’Angola, em Town of Lagos, como foi o caso, em 1900, da menina Romana da Conceição.

Foi, igualmente, o exemplo de António que era um cabinda; serviçal do convento do Carmo na Bahia, onde teria sido alforriado e ido para Ajuda, presumivelmente, em 1838, com seus cinquenta anos. Teria viajado para São Tome, Fernando Pó, Porto Novo e se estabelecido em Lagos, onde teria falecido por volta de 1878.

Manuela Carneiro afirma a propósito desse angolense, tornado, Padre, brasileiro de Lagos, que foi uma personagem edificante da Igreja nesta cidade, um autêntico precursor.

Ela baseou-se num artigo de J.B. Chausse, contida na revista “Les Missions Catholiques”, publicada em 1881, onde testemunha (1861), numa linguagem típica da época “António foi verdadeiramente o precursor dos missionários nestas paragens barbaras, ele próprio missionário incomparável, desempenhou um papel providencial”.

Essas anedotas são ilustrativas do regresso, visivelmente, errado de angolenses no Golfe de Benim ou de Biafra.

Coming-back desacertado mas provocado, visivelmente, pela singular frieza das relações diplomáticas entre a Inglaterra, firmemente, abolicionista, e o Brasil e Portugal, notoriamente, hesitantes.

Londres facilitou, logicamente, a instalação de descendentes de “acorrentados” embarcados na foz do Nzadi, na embocadura do Cuanza ou na pantanosa Benguela, não e para Angola, mas sim, para a Nigéria, um território sob o seu controlo, sobretudo a partir 1861.

Esta situação era previsível com vários acontecimentos a volta da espinhosa ”Questão Negra”, que eram, invariavelmente, pan – étnicas.

E assim que, houve, na revolta muçulmana de 1835, na Bahia, a participação de cabindas e congos.

E quase certo que uma grande parte dos” vutuka” eram cristãos, originários, do sul do Equador.

IRMANDADE DE ANGOLAS

Houve, no Golfe de Benim, entre outras continuidades, uma forte réplica da Igreja católica saída da Irmandade de Angolas, que era bem implantada na Bahia.

Esta replicação era imaginável se estivemos em conta o facto de várias ordens da Igreja possuir escravos.

O destino da remigração importa pouco, porque, segundo Pierre Verger, toda a Africa era considerada a pátria de um escravo, qualquer que fosse sua origem étnica.

Como não podia de ser assinalado, a investigadora brasileira, membro da Academia de Ciências, aponta a perpetuação na “Afro-Brazilian Colony” em Eko (apelação ioruba da antiga capital federal) do ritmo da samba e do prato mungunza.

Na dinâmica da sua irreversível integração na sociedade nigeriana e na perspetiva da sua participação, ativa, na luta pela emancipação política da sua nova nação, muitos “returned” mudaram, sobretudo a partir do início de seculo, seus nomes para adotar apelidos iorubas.

Foi o caso da respeitada família Assunção, oriundo da burguesia logosiana, que optara para o cognome de Alakija. O clã deu dois irmãos, brilhantes advogados, cujas fotografias foram reproduzidas na capa e contracapa da obra, mas igualmente, o honrado Plácido Assunção, o futuro Sir Adeyemo Alakija.

Em conclusão, a leitura de “Negros, Estrangeiros. Os escravos libertos e a sua volta a Africa”, deve ser feita tendo em conta todas as conexões históricas, políticas, diplomáticas e religiosas, que remontam, inevitavelmente, ao Quadrilátero, um dos marcadores da genética histórica do Recôncavo baiano.

Anúncios

Adinkras

Padrão

Dentre os saberes desenvolvidos pelos akan – grupo cultural presente no Gana, Costa do Marfim e no Togo, países da África  do Oeste – destaca-se a utilização de um sistema de símbolos para transmitir ideias. Cada símbolo está associado a um  provérbio ou ditado específico, enraizado na experiência dos akan. O conjunto desses símbolos, chamados adinkra, formam  um sistema de preservação e transmissão dos valores acumulados pelos akan. Pode-se dizer que esses símbolos são um tipo  de escritura pictográfica, utilizada amplamente no cotidiano dessa sociedade e que está presente nos tecidos, cerâmica,  arquitetura e em objetos de bronze. Da mesma maneira que os documentos escritos materializam a história nas sociedades  ocidentais, em muitas culturas africanas é a arte que traz o conhecimento do passado até o presente. O símbolo da Casa das Áfricas é um adinkra.

História

A população akan desenvolveu habilidades significativas na tecelagem no século XVI, em Nsoko (hoje Begho), importante  centro de tecelagem. Os adinkra, originalmente produzidos pelos clãs gyaaman, da região Brong, eram de direito exclusivo da  realeza e dos líderes espirituais, e só podiam ser utilizados em cerimônias importantes, tais como funerais – adinkra significa  “adeus”. Durante um conflito militar no início do século XIX, causado pelos gyaaman, que tentavam copiar a “cadeira de ouro”  (símbolo da nação ashanti), o rei gyaaman foi morto. Seu manto adinkra foi tomado por Nana Osei Bonsu-Panyin, o   Ashantehene (rei ashanti), como troféu. Com a túnica, veio o conhecimento da aduru adinkra (tinta especial utilizada no  processo de impressão) e do processo de estampagem de desenhos em panos de algodão. Com o tempo, os ashantis desenvolveram mais a simbologia adinkra, incorporando sua própria filosofia, contos folclóricos e cultura.

Tecidos

Os tecidos ocupam um lugar muito especial na cultura Akan. São utilizados não apenas como vestimenta, mas também como  forma de expressão. Assim, os símbolos adinkra são estampados nos tecidos, para transmitir mensagens. Essa rica tradição  existe desde o século XVII. Inicialmente, as vestimentas com símbolos adinkra eram usadas apenas nas cerimônias fúnebres.  Os símbolos utilizados expressavam as qualidades atribuídas à pessoa que havia morrido. Hoje em dia, os tecidos com  estampas adinkra são usados no dia a dia, mas principalmente em celebrações. Os símbolos são estampados nos tecidos por  meio de uma espécie de carimbo, feito com a casca de cabaças. Este é mergulhado numa tintura feita com cascas de árvores e  pressionado diversas vezes no tecido para criar estampas. Atualmente, tecidos industrializados comemorativos também são  estampados com adinkras. É o caso de um pano produzido por ocasião do falecimento do professor Georges Niangoran  Bouah, grande estudioso da cultura Akan. Recomendamos Adinkra: sabedoria em símbolos africanos de Elisa Larkin

Nascimento e Luiz Carlos Gá. Rio de Janeiro: Pallas, IPEAFRO, 2009.

http://www.adinkra.org/htmls/adinkra_index.htm
http://www.fredsmith.com/

Colaboração do nosso amigo Carlos Souza (Brasil/RJ)