Arquivo da categoria: Golpe de Estado

Guiné-Bissau, 39 anos de independência?

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Por Eugénio Costa Almeida

“A Guiné-Bissau comemora – ou comemoraria – hoje [24 de Setembro] o seu 39º aniversário de independência.

Escrevo comemoraria, porque tal como o seu vizinho Mali, está sob a “protecção” de terceiros que, aproveitando um eventual Coup d’État – que muitos consideram uma oportuna e bem montada intentona – se “apoderaram” da vida política, social e, principalmente, militar do País.

De facto, tal como o Mali – com a grave particularidade de este estar já cindido sem que a UA e a CEEAO nada efectivamente façam – a Guiné-Bissau está sob domínio de pseudo-potências que só conseguem manter o seu actual status quo através de patrocínios, com maior ou menor evidência, de Golpes de Estado.

Quantas vezes o Senegal já tentou intervir, directamente, nas questões Bissau-guineenses e das anteriores vezes que isso aconteceu foi copiosamente derrotado?

Quantas vezes os vizinhos de Bissau tentaram impor as suas regras políticas e de todas elas os guineenses aplicaram o chamado “xuto no cu” aos potenciais “imperadores locais”?

Só o conseguiram agora através do patrocínio “descomplexado” dos subservientes senhores que dominam a actual CEEAO e com o pouco discreto beneplácito da União Africana.

Talvez que o 40º aniversário seja mesmo comemorado e em plena liberdade!”

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A Primavera para Elas

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Por Carla Habif*

LEER EN ESPAÑOL

Desde dezembro de 2010 o mundo está de olho na onda de revoluções denominada Primavera Árabe, ocorrida em países onde o objetivo da população civil é conseguir mais democracia. Primavera é a estação das flores. Flores, por sua vez, lembram mulheres. Não porque são delicadas, ou porque muitas de nós a consideramos como um agrado carinhoso. Mas porque existem milhares de espécies, com as mais diferentes cores e incontáveis cheiros. Assim como nós, mulheres, o infinito enigma masculino. E ainda que todo dia seja dia e todo mês seja propício para fazer uma homenagem ao sexo forte – sim, estou me referindo às mulheres – nada como o mês de março para dar uma atenção especial, já que nele temos um dia internacional! Falemos aqui, apontando exemplos de ação e coragem, da participação das mulheres nos protestos e revoltas da Primavera Árabe.

Para começar, sim, elas estão envolvidas, desde o começo. Pode não ser surpresa para aqueles que estão familiarizados com o feminismo dos países árabes, já que as mulheres representam um dos grupos que mais defende a sociedade civil na região do Oriente Médio. Mas, ainda assim, é novidade para muita gente.

Em muitos destes países as mulheres são submetidas às denominadas “leis tutelares”, que as qualificam com um status social minoritário e, na maioria das vezes, limita seus direitos. Desta forma, elas sabem bem o perigo de uma suposta democracia a ser estendida apenas para parte da população. Além disso, as protagonistas deste texto têm seus motivos para desconfiar de revoluções levadas a cabo pelos homens da sociedade. Diversas vezes na História, elas assistiram uma revolta social não ter o resultado esperado para a ala feminina dos rebelados. Um exemplo disso foi a Guerra da Argélia, na qual mulheres foram às ruas e lutaram lado a lado com os homens. Porém, vencido o colonialismo francês, as leis impostas as mantinham dentro de casa a serviço exclusivo do marido.

Devido a casos deste tipo, as mulheres dos países árabes – cientes do passado de suas sociedades – querem ter certeza de que o caminho da democracia não irá ser desviado se seu próprio destino.

Como sabemos, cada país que passa ou passou pelos movimentos da Primavera Árabe possui diversas particularidades, como a participação de grupos e organizações em cada um deles. Vejamos casos ocorridos na Tunísia e no Egito.

Na Tunísia, berço das revoltas, alguns estereótipos podem ser retirados de cena. Após a independência da França em 1956, o novo governo aboliu a poligamia e estabeleceu a igualdade das partes no casamento, divórcio e custódia dos filhos. Alguns anos depois, estabeleceu-se idade mínima para o casamento (18 anos) e o país adotou penalidades relativas à violência doméstica. Com boa parte da sociedade secular, as mulheres têm acesso a métodos anticoncepcionais desde 1962. Direito ao aborto – o que não se tem no Brasil, diga-se de passagem – desde 1965. Ainda assim, filhas só podiam herdar metade do que os filhos e o marido tinha direitos sobre propriedades adquiridas por sua esposa durante o casamento.

Desta forma, as tunisianas estavam prontas para participar – e inclusive tomar a frente – das revoltas democráticas. Lina Ben Mhenni, blogueira ativa, foi provavelmente uma das primeiras a alertar o mundo sobre os protestos tunisianos em dezembro de 2010. Ela continuou, e continua até hoje, apesar de ameaças e censuras que sofre.

Nas ruas, era possível ver mulheres em massa lutando pelos direitos da sociedade. Algumas usando jeans, outras véu e inclusive minissaia. Adolescentes, avós, mães. Casadas, divorciadas e solteiras. Elas estavam lá, na luta pela derrocada de um déspota, e foram exemplo para uma vasta região.

Porém, realizar uma revolução é apenas um passo. Construir uma nova sociedade é outro. A feminista Raja bin Salama, crítica ativa da subjugação feminina pelo fundamentalismo islâmico, pediu publicamente para que as novas leis da Tunísia se embasassem na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Ainda sob pressão, elas continuam em sua luta. Khadija Cherif, ex-cabeça da Associação Tunisiana das Mulheres Democráticas, garante que a luta pela separação entre Estado e religião irá continuar. Em suas palavras, “a força do movimento feminista tunisiano está no fato de que nós nunca o separamos da luta pela democracia e pela secularização social”.

No Egito, a sociedade seguiu o exemplo da Tunísia em busca de um governo democrático e pode-se dizer que as mulheres contribuíram muito para isso. Apesar de décadas de censura, o movimento feminista egípcio de longa data sobreviveu este tempo todo. Também no passado elas foram ativas, tendo cumprido um importante papel na revolução contra os britânicos em 1919. Porém, após a independência, foram ignoradas pelo partido Wafd, que tomou o poder. O movimento feminista irrompeu em 1923, quando Huda Sha’rawi arrancou seu próprio véu em público. Desde então, permaneceu tão ativo quanto conseguiu, sob uma autocracia nas últimas décadas, abraçando diversas ONGs e ativistas.

A participação da mulher egípcia foi passível de comprovação através de sua presença em massa durante as revoltas na Praça Tahir. De acordo com Amal Abdel Hady, da Fundação Nova Mulher, o número inferior de mulheres comparado ao dos homens se justifica tanto por passados episódios de abuso sexual, quanto pela simples falta de atenção da mídia ao papel exercido por elas neste episódio.

De qualquer forma, foi uma mulher de 26 anos uma das primeiras a receber destaque e os créditos pela ação da sociedade egípcia em Tahir. No dia 18 de Janeiro de 2011, Asmaa Mahfouz publicou um vídeo no Youtube e no Facebook no qual declarava que as mulheres deveriam ir e iriam aos protestos do dia 25, com tanta ou mais virilidade – por assim dizer – do que muitos homens. O vídeo não demorou a se espalhar de forma viral e a planejada breve manifestação tornou-se, em si, uma revolução.

Outros dois exemplos a serem citados são Amal Sharaf e Nadine Wahab. A primeira, professora de inglês, com 36 anos e mãe solteira e membro do Movimento Juvenil 6 de Abril, passou dias e noites no pequeno escritório da organização supervisionando uma equipe de homens trabalhando pela revolução. A segunda, egípcia de nacionalidade americana e especialista em novas mídias, tornou-se responsável por um importante cargo de na Google, aumentando a divulgação online. Cabe citar também as Mulheres do Egito, um grupo do Facebook, que publicou uma galeria de fotos demonstrando o papel feminino nos protestos.

Ainda assim, desde a renúncia de Hosni Mubarak, a voz da mulher tem sido deixada de lado no diálogo político. De forma deplorável, o comitê responsável pela reformulação da constituição excluiu não só a participação de mulheres, mas de especialistas em direitos femininos. Em resposta, o Centro Egípcio para o Direito das Mulheres publicou uma declaração denunciando a exclusão. O documento foi assinado por 102 organizações femininas do Egito.

Enquanto isso, mulheres foram e continuam ativas por toda a região onde a Primavera Árabe tem se estendido. Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein… Não há lugar no qual não se encontre o papel feminino nas mudanças ocorridas e naquelas ainda por acontecer.

Estas mulheres, como muitas ao longo da História, merecem mais do que uma homenagem por agir em locais hostis a sua participação social ou mesmo sequer por fazer valer os seus direitos. Merecem o reconhecimento mundial – e local – de seu papel como mulheres em suas respectivas sociedades e como cidadãs.

“We see women, Islamist or not Islamist, veiled or not veiled, coming together and leading what’s happening on the ground… We’ll never go back to square one.” – Magda Adly, membro do Centro El Nadim de Reabilitação para Vítimas de Violência.

Carla Habif, natural do Rio de Janeiro, Brasil. Historiadora, graduada pela Universidade Federal Fluminense, é especialista em Relações Internacionais, com foco na área de política internacional no Oriente Médio.

VIVIMOS AFRICA – 1 / Entrevista com Orlando Castro

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Por Bárbara Igor (MISOSOAFRICA)

Orlando Castro, é na atualidade uma das vozes críticas mais implacáveis contra o governo de José Eduardo dos Santos.  Residindo em Portugal desde o ano 1975, seu trabalho como jornalista não tem estado livre de dificuldades, o que felizmente, não tem sido um problema para continuar com o exercício do que ele define como: “o dever sagrado de dar voz a quem não tem voz”.

Autor de livros como «Cabinda – ontem protectorado, hoje colónia, amanhã Nação» (2011) e «Alto Hama – Crónicas (diz)traídas» (2006), livro com prefácio de Eugénio Costa Almeida, no qual da conta da sua trajetória no Portal Alto Hama, site informativo de tipo crítico, dedicado à atualidade do Conjunto de Países de Língua Portuguesa.

ORLANDO CASTRO, JORNALISTA

BI: Para muitos, Orlando Castro representa uma das caras visíveis na luta contra o governo de José Eduardo dos Santos. Para além da sua responsabilidade como jornalista, o que lhe faz insistir diariamente nesta tarefa, muitas vezes pouco reconhecida e até “ingrata”?

OC: É, de facto, uma missão muito ingrata e até perigosa. Não faltam ameaças de todo o génereno, algumas até de morte. Mas, como angolano e como jornalistas, tenho o dever (para mim sagrado) de dar voz a quem não tem voz. E 70% de angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome. E tudo isto num país muito rico. Portanto, enquanto houver um angolano com fome por culpa de um presidente e de um governo que só trabalha para os poucos que têm milhões e não para os milhões que têm pouco, a minha consciência exige que continue a lutar.

BI: Pouco se sabe no exterior sobre a situação dos opositores ao governo de José Eduardo dos Santos. Poderia nos falar um pouco da sua experiência, num país com ligações muito importantes com Angola, como é o caso de Portugal?

OC: Sobretudo depois da morte, há dez anos, do líder da UNITA, Jonas Savimbi, terminou de facto a oposição ao regime de José Eduardo dos Santos. E se internamente, ou seja dentro de Angola, todos os que pensam de forma diferente do MPLA são culpados até prova em contrário, também no exterior (em Portugal, por exemplo) os que não são favoráveis ao regime sofrem a perseguição própria de países que não querem que o actual dono de Angola se zangue. Eduardo dos Santos, directa e indirectamente, é dono de grandes empresas portuguesas, nomeadamente de comunicação social. E por essa razão há caa vez menos jornalistas a falar do que se passa em Angola. E, também por isso, os partidos que em Angola lutam contra o regime têm pouco tempo de visibilidade no exterior e ainda menos no interior.

Saí de Angola, oficialmente, no final de 1975. Durante os anos de guerra civil voltei várias vezes,entrando no país de forma clandestina segundo o regime instaurado em Luanda, e de forma natural de acordo com o partido que lutava contra o regime, a UNITA. Hoje estou impedido, na prática, de entrar no meu país. Todas as tentativas de entrada legal são boicotadas e adiadas “sine die”.

BI: Segundo o que podermos (podemos) ler diariamente nos seus artigos, seu trabalho além de ser informativo, tenta reforçar a ética jornalística. Como é que surge este interesse por exemplificar o trabalho do jornalista?

OC: Bom! Cada vez mais, sobretudo tomando como referência Portugal e Angola, o jornalismo deixou de ter regras deontológicas e éticas, passando apenas a seguir as leis da oferta e da procura, transformando-se num mero produto comercial, numa mera mercadoria. Ora, para mim, o jornalismo deve ser uma actividade em que a verdade é o objectivo essencial e único. De facto, a verdade pode doer muito, mas só ela pode curar. É, aliás, isso que o público (que é, afinal, o nosso único patrão) exige de nós. No entanto, quando o “jornalista” escreve apenas o que lhe mandam, o que dá dinheiro, não passa de um mercenário. Aprendi que se o jornalista não procura saber o que se passa, é um imbecil. E que quando sabe o que se passa mas se cala, é um criminoso. É por isso que há cada vez mais imbecis e criminosos.

BI: Tem alguma explicação para a falta de rigor ou de ética jornalística da que faz diariamente denuncia?

OC: Os jornalistas, mais do que informar, mais do que formar, têm de vender. Vender, vender sempre mais. Os jornalistas são os montadores que, de acordo com o mercado, alinham as peças de um crime, de um comício, de um atentado ou de um buraco na rua. Se o que vende é dar uma ajuda ao partido do Governo para que este ganhe as próximas eleições, são essas as peças que têm de montar, nada contando a teoria da isenção que é tão do nosso teórico agrado. Se o que vende é divulgar os produtos da empresa «X», são essas as peças que têm de montar, passando por cima do facto de essa empresa eventualmente não pagar os salários aos seus trabalhadores, promover criminosos despedimentos ou apostar no trabalho infantil. Se o que vende é dar cobertura às ditaduras (sejam as de Robert Mugabe ou José Eduardo dos Santos), são essas peças que têm de montar, calibrando-as da forma a parecerem dos melhores exemplos democráticos.

Orlando Castro, Angola.

BI: Na minha experiência, muitos angolanos que dizem serem “apolíticos”, explicam não ter reparo nenhum contra o governo do seu país, nem muito menos ter visto repressão aos jornalistas. Como pode se explicar isto?

OC: Para ver não basta olhar. É preciso querer ver. Aliás, o pior cego é exactamente aquele que não quer ver. Tal como no tempo da União Soviética, com a qual o regime angolano aprendeu tudo o que sabe, ou no tempo da ditadura portuguesa de Salazar, existe em Angol uma cortina de ferro que separa os filhos dos enteados. E quem quiser ser filho, quem quiser ter emprego, ter casa, ter assistência médica… tem de ser “cego”. Isto é, tem de saber que o MPLA é Angola e que Angola é o MPLA. Não podem, por isso, ver o que se passa. Não podem defender a igualdade de direitos e, muito menos, o direito a uma opinião diferente. A situação está a mudar, a as manifestações dos jovens são prova disso. Mas, mesmo assim, por uma questão de sobrevivência, os angolanos só conseguem ver o que o regime quer que eles vejam.

BI: Falando na sua própria linguagem, dizemos que existem ditaduras fortes e ditaduras brandas, e assim também ditaduras que representam um benefício para as potencias econômicas e culturais. Na atualidade, como é que o mundo vê o fato de ser o MPLA o único partido político no poder desde a independência angolana?

OC: O mundo, num sistema hipócrita, apenas olha para as riquezas de Angola. E enquanto o regime continuar a negociar, a vendar petróleo e a comprar armas, vai manter o estatuto de bestial. Sempre foi assim. Foi assim com a Tunísia, com a Líbia, com o Egipto. Se um dia o regime cair (e vai mesmo cair), as potências internacionais vão dizer que, afinal, Eduardo dos Santos era um terrorista e passarão a negociar com quem estiver no poder. Reconheço, contudo, que é mais fácil ao mundo negociar com ditadores do que com democracias. É mais fácil negociar com um regime que tem no comando há mais de 30 anos a mesma pessoa, do que com um que seja democrático e que por isso vá alternando os dirigentes. Por outras palavras, é mais fácil corromper sempre os mesmos.

BI: Não seria novidade uma nova vitória do MPLA nas eleições. Em sua opinião, quais deveriam ser  as novas diretrizes do governo quanto ao desenvolvimento do país em assuntos do tipo: infraestrutura, superação da pobreza, mortalidade infantil, liberdade de expressão.

OC: Não. Não é novidade que o MPLA vai ganhar. Aos anos que está no poder, vai voltar – tal como em 2008 – a pôr os mortos a votar. Será difícil acreditar que o regime alguma vez vai pôr o interesse do povo acima dos seus interesses. Como qualquer ditadura, Angola terá sempre duas faces. Uma de luxo e uma de miséria. Até por razões étnico-históricas, o MPLA nunca estará interessado em desenvolver as zonas do país onde vivem povos que historicamete pertencem a uma outra sociedade. Foi, aliás, esse elitista política de segregação em que os povos do Norte, nomeadamente da região de Luanda, apreciam como sendo de uma casta superior, que levou a que a UNITA nunca desistisse de lutar. Os povos ovimbundos e bailundos sempre foram considerados pelo regime como seres inferiores. As suaz regiões vão, por isso, continuar a ser as menos desenvolvidas. Por alguma razão, no dia 24 de Fevereiro de 2002 alguém disse: “sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o mais velho (Jonas Savimbi), agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados.

BI. Qual é sua previsão para o futuro de Angola como um Estado-Diretor? E em relação ao Palop?

OC: Angola, sobretudo porque é uma potência económica e militar, acabará por ter um futuro risonho. E, creio, não demorará muito tempo. A população está cansada das más acções do regime e vai, espero que pacificamente, apostar na mudança democrática e na verdadeira criação de um Estado de Direito. E quando isso acontecer, aliando o poder económico à credibilidade democrática, Angola vai ser a locomotiva do desenvolvimento dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Nesta altura, como se viu pela sua recente interferência na Guiné-Bissau, os resultados não doram bons porque Luanda não se apresentou como um estado democrático, facto que lhe retirou toda a margem de manobra.

BI: Continuando com Guiné-Bissau, como vê a presença da MISSANG e sua saída na altura do golpe de Estado?

OC: Como referi no final daresposta anterior, a MISSANG foi vista, e com razzão, como acto de colonialismo. Fosse Angola um regime democrático e um verdadeiro Estado de Direito, ou seja, um exemplo de boa governação (como acontece com Cabo Verde) e as autoridades guineenses não teriam problemas em aceitar a sua presença. Por alguma razão os guineenses perguntavem: quem é Angola para mandar uma missão militar para a Guiné-Bissau? E tinham razão. Ao factor militar propriamente dido de Angola faltou a legitimidade que seria total se o regime fosse democrático.

Orlando Castro, África.

BI: Poderia nos explicar como é que entende a atualidade africana, quais são seus maiores problemas a resolver, e quais deles tem alguma possibilidade real de serem resolvidos pelos próprios africanos.

OC: Todos os problemas africanos, e são muitos, devem ser resolvidos em primeiro lugar pelos africanos. África tem (quase) tudo para ser um grande continente e até, daqui a algumas gerações, uma grande espaço de desenvolvimento económico, humano e social, de harmonia mais ou menos estável. Deus, seja Ele quem for, deu a África tudo o que era preciso para ser um doas mais prósperos continentes. Infelizmente este espaço foi criminosamente dividido à régua e esquadro pelos colonizadores europeus que, por se acharem superiores, se limitarem (com poucas excepções, entre as quais – apeser de tudo – Portugal) a explorar as suas riquezas. E esta divisão que originou, e origina, as endémicas guerras. O mesmo povo foi, por exemplo, dividido por vários países e obrigado a conviver com raças totalmente diferentes. Ora isso é algo que, no contexto africano, gera guerras fronteiriças. Se a isso se juntar o facto de as grandes potências querem vender armas a troco das riquezas naturais…

BI: Para além dos problemas mais urgentes que alguns dos países da África apresentam, o problema da instabilidade política e a falta à democracia, assim como os constantes golpes de estado, parecem ser a gênese das dificuldades. Como é que este tipo de situação ainda não pode se controlar ou evitar?

OC: É preciso que a comunidade internacional tenha a coragem, que eu acho que não tem, de reequiacionar a divisão territorial de muitos países, criando novas fronteiras e procurando juntar o que é passível de se juntar. Com tempo, com a imprescindível colaboração dos africanos, será possível ver que as actuais fronteiras foram herdadas dos regimes coloniais (recentes em termos históricos) e não correspondem à verdade dos povos que ocupam essas regiões. Em muitos caso, mais do que querer instaurar a democracia é urgente reinventar a geografia de África.

BI: Muito se tem falado de um Renascimento do Continente africano, e aos poucos vemos um crescente interesse pelos assuntos relativos à África. Como é que entende esta situação?

OC: África está na moda, mas nem sempre pelas melhores razões. São poucos os que, por exemplo, se atrevem a defender a tese de que as fronteiras africanas devem ser reestruturadas se se quiser pacificar o continente. A maioria apenas pretende explorar as riquezas e, como se isso não bastasse, vender armas. Isto porque os africanos vão se matando uns aos outros… mas as riquezas continuam lá à espera de quem as vá explorar.

BI: Na época das independências, países como Angola, Serra Leoa e África do Sul pareciam ver na América Latina um exemplo a seguir. Hoje se fala de África olhando com crescente interesse para China. Qual é sua visão sobre isto?

OC: Creio que a América Latina é, do ponto de vista da concivência política e do rejuvenescimento económico, um exemplo ponderado por muitos países africanos. Pena é que sejam os chineses a tomar conta dos países africanos. É claro que a China, desde logo também pelo apoio que deu aos movimentos de libertação, está a tirar dividendos da aposta que fez em África. De qualquer modo, penso que as novas gerações de africanos querem acabar com esse domínio e virar-se para países que, apesar de tudo, são referência mais importantes. Tirando o aspecto de um enorme mercado consumidor e produtor que é a China, a América Latina pode desempenhar um papel relevante não só em África como na Europa. Não pode, contudo, perder o comboio.

BI: Para fechar, poderia fazer uma reflexão em relação a seu trabalho como jornalista e seu interesse e/ou responsabilidade com África.

OC: Há com certeza razões profundas para que eu acredite (sem grande sucesso, acrescente-se) que é preferível ser salvo pela crítica do que assassinado pelo elogio. Há com certeza razões profundas para que eu acredite (sem grande sucesso, acrescente-se) que é preferível andar todos os dias, a todas as horas, com a coluna vertebral, em vez de a deixar em casa. E essas razões profundas nasceram em Angola, nasceram em África. Tem sido uma tarefa complicada? Tem sido e continuará a ser. Porquê? Por que é muito forte a pressão dos que nos querem acéfalos, autómatos e, como se isso não bastasse, invertebrados também. Foi nas ruas da cidade do Huambo que aprendi, valores que ou se têm ou não se têm. Não se compram. Aprendi que, tal como Angola, África não se define – sente-se.

 Revisão de Textos: Virgínia Gomes (BH)

No Egipto, Tribunal Constitucional dá golpe?

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Por Eugénio C. Almeida (Portugal)

Depois de ter aceite como válida a candidatura à presidência de Ahmed Shafiq, um antigo membro (primeiro-ministro) do Governo de Mubarak e confirmada a mesma candidatura à segunda volta pelo AltoTribunal Constitucional egípcio – que revogou a “Lei de Isolamento Político”, que proibia antigos altos funcionários do regime de Hosni Mubarak de participarem em eleições presidenciais.

De notar que a segunda volta das eleições presidenciais que t~em como candidatos Shafiq e , Mohammed Mursi, candidato da Irmandade Muçulmana, vencedor da primeira volta, realizam-se amanhã, sábado, e domingo.

Mas se aquele Tribunal sancionou a candidatura de Shafiq, com a revogação da referida Lei, está a dar mostras de parecer querer estar a dar um golpe de Estado jurídico-palaciano.

De facto, ontem o Alto Tribunal Constitucional anulou e considerou inconstitucional o Parlamento saído das últimas legislativas devolvendo o poder legislativo e governativo ao Conselho Militar que dominou o país após a queda de Mubarak.

Ora as manifestações na Praça (Tahrir) Tarik vão, por certo, intensificarem-se não só porque muitos não aceitam a presença de antigos membros dos governos de Mubarak como candidatos ao Poder como, agora com o apoio dos Irmãos Muçulmanos, vencedores das legislativas – mesmo que sem maioria absoluta –, irão aumentar esses protestos.

Depois dos recentes movimentos contestatários na Tunísia e das confusões – previsíveis, embora menos do que seriam expectáveis – na Líbia, volta a Primavera Árabe a desencadear mais protestos.

Com isto, Assad, na Síria, pode respirar um pouco mais livremente porque o ocidente deseja, primeiro que tudo, estabilizar as crises sociais e políticas no Norte de África.

Têm maior impacto na economia e na estabilização do sul da Europa…

E em África os golpes de Estado persistem…

IMAGEM: AGENCIA EFE

António Aly Silva foi liberado na Guiné-Bissau

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Por António Aly Silva

“Mais de um milhão de guineenses estão reféns de militares… guineenses. Temos sido sacudidos e violentados, usurpam e tolhem-nos os nossos direitos, até o mais básico. Até quando mais a comunidade internacional vai tolerar que gente medíocre – alguma classe política, e militar faça refém todo um povo? A história endossará uma boa parte da responsabilidade à comunidade internacional.
Ajudem o povo da Guiné-Bissau; não os abandonem, agora, mais do que nunca. Tiveram todos os sinais de que uma insurreição era possível, ainda que desnecessária. Nada justifica o levantar das armas, é intolerável o disparo de armas pesadas numa cidade com mais de quatrocentas mil pessoas. É criminoso, acima de tudo. Tiveram tudo para estancar a hemorragia e a orgia de violência. Sabem há muito que este é um país que nasceu, cresceu e vive sob laivos de militarismo.
Agora, tudo está calmo. Não há tiros, nem feridos nas urgências e menos ainda corpos na morgue resultado de mais uma brutalidade da canalha. Não se sabe quem morreu – espero e desejo que ninguém tenha sido morto. Um país é o último, e único, refúgio seguro para o seu povo. Foi traumatizante ver mulheres e crianças a chorar; é triste ver homens e jovens a fugir de homens e jovens como eles. É desolador. Estou abatido, e, sobretudo cansado. Não tenho sequer forças para gritar.
Olho e registo tudo. Depois escrevo, na certeza de que alguém me vai ler e comungar dos mesmos sentimentos. O meu blogue, hoje, foi já acessado por mais de 50 mil pessoas. Ficará para a estatística. Teria preferido uma visita por dia, a ter de suportar cem mil pares de olhos tristes e enevoados: estão a matar-nos, estão a destruir as famílias, a tornar as crianças violentas.
O pior da Guiné-Bissau, meus caros… é o guineense!

Um abraço a todos.”

REF: Texto Publicado no Alto Hama, pelo Jornalista Orlando Castro