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A CONTRA-ROTA BRASILEIRA DA ESCRAVATURA – RETORNADOS CONGOS-ANGOLA TORNARAM-SE AGUDAS

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Por Simão SOUINDOULA

E, em filigrane, o que transparece da leitura da obra “Negros, Estrangeiros. Os escravos libertos e a sua volta a Africa”, da autoria de Manuela Carneiro Da Cunha, livro que acaba de ser reestampado, em São Paulo, na sua segunda remessa, revista e ampliada, na Editora Schwarz e inserida na sua coleção Companhia das Letras.

Estalando-se em 279 páginas, particularmente, densas, o volume e estruturado numa dezena de articulações nas quais são abordados a evolução das modalidades de alforria dos africanos escravizados no Brasil; o seu estatuto social, jurídico e político, francamente, hibrido, e a conturbada história do seu retorno para a “Costa dos Escravos”, singularmente, na cidade de Lagos.

Analisa, ai, a origem étnica dos melano – brasileiros, regressados, as suas atividades laborais, opções politicas, preferências culturais e praticas religiosas.

Replica, para o essencial, da sua tese de doutoramento, a antiga Professora nas Universidades de São Paulo e Chicago, fornece, em anexo, um quadro cronológico da temática tratada e um conjunto de referências bibliográficas, nas quais nota-se estudos de Stuart B. Schwartz, “The mocambo: Slave resistance in colonial Bahia” (1970) e “Bresil, le royaume noir des mocambos” (1982).

A autora inclui no seu trabalho um generoso desdobramento iconográfico no qual reencontramos, entre outras estampas, as, famosas, do alemão Johan Moritz Rugendas, retratos de cativos angola, benguela, cabinda, congo, monjolo e rebolla (libolo?).

Nota-se o prefácio, para esta segunda edição, redigido pelo historiador Alberto da Costa e Silva, que foi Embaixador do Brasil no Benim e na Nigéria e membro do Comité Cientifico Internacional do Projeto da UNESCO da “Rota”.

REGRESSO ERRADO

Envolvidos em circunstâncias, perfeitamente, incontroláveis, muitos “malungos” pararam, em vez, da Cote d’Angola, em Town of Lagos, como foi o caso, em 1900, da menina Romana da Conceição.

Foi, igualmente, o exemplo de António que era um cabinda; serviçal do convento do Carmo na Bahia, onde teria sido alforriado e ido para Ajuda, presumivelmente, em 1838, com seus cinquenta anos. Teria viajado para São Tome, Fernando Pó, Porto Novo e se estabelecido em Lagos, onde teria falecido por volta de 1878.

Manuela Carneiro afirma a propósito desse angolense, tornado, Padre, brasileiro de Lagos, que foi uma personagem edificante da Igreja nesta cidade, um autêntico precursor.

Ela baseou-se num artigo de J.B. Chausse, contida na revista “Les Missions Catholiques”, publicada em 1881, onde testemunha (1861), numa linguagem típica da época “António foi verdadeiramente o precursor dos missionários nestas paragens barbaras, ele próprio missionário incomparável, desempenhou um papel providencial”.

Essas anedotas são ilustrativas do regresso, visivelmente, errado de angolenses no Golfe de Benim ou de Biafra.

Coming-back desacertado mas provocado, visivelmente, pela singular frieza das relações diplomáticas entre a Inglaterra, firmemente, abolicionista, e o Brasil e Portugal, notoriamente, hesitantes.

Londres facilitou, logicamente, a instalação de descendentes de “acorrentados” embarcados na foz do Nzadi, na embocadura do Cuanza ou na pantanosa Benguela, não e para Angola, mas sim, para a Nigéria, um território sob o seu controlo, sobretudo a partir 1861.

Esta situação era previsível com vários acontecimentos a volta da espinhosa ”Questão Negra”, que eram, invariavelmente, pan – étnicas.

E assim que, houve, na revolta muçulmana de 1835, na Bahia, a participação de cabindas e congos.

E quase certo que uma grande parte dos” vutuka” eram cristãos, originários, do sul do Equador.

IRMANDADE DE ANGOLAS

Houve, no Golfe de Benim, entre outras continuidades, uma forte réplica da Igreja católica saída da Irmandade de Angolas, que era bem implantada na Bahia.

Esta replicação era imaginável se estivemos em conta o facto de várias ordens da Igreja possuir escravos.

O destino da remigração importa pouco, porque, segundo Pierre Verger, toda a Africa era considerada a pátria de um escravo, qualquer que fosse sua origem étnica.

Como não podia de ser assinalado, a investigadora brasileira, membro da Academia de Ciências, aponta a perpetuação na “Afro-Brazilian Colony” em Eko (apelação ioruba da antiga capital federal) do ritmo da samba e do prato mungunza.

Na dinâmica da sua irreversível integração na sociedade nigeriana e na perspetiva da sua participação, ativa, na luta pela emancipação política da sua nova nação, muitos “returned” mudaram, sobretudo a partir do início de seculo, seus nomes para adotar apelidos iorubas.

Foi o caso da respeitada família Assunção, oriundo da burguesia logosiana, que optara para o cognome de Alakija. O clã deu dois irmãos, brilhantes advogados, cujas fotografias foram reproduzidas na capa e contracapa da obra, mas igualmente, o honrado Plácido Assunção, o futuro Sir Adeyemo Alakija.

Em conclusão, a leitura de “Negros, Estrangeiros. Os escravos libertos e a sua volta a Africa”, deve ser feita tendo em conta todas as conexões históricas, políticas, diplomáticas e religiosas, que remontam, inevitavelmente, ao Quadrilátero, um dos marcadores da genética histórica do Recôncavo baiano.

HISTÓRIA DE ANGOLA: A RAINHA NZINGA, RUMO A PATRIMONIO DA HUMANIDADE

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Por Johnny Kapela

(International Networking Bantulink)

E, a dinâmica que anuncia a publicação, há dias, em Lisboa, das atas do Coloquio Internacional sobre a Dizonda, realizado em Roma, em Marco de 2010, sinergia completada, coincidentemente, pela recente implementação pela UNESCO do seu programa Women Figures in African History: an E-learning Tool, projeto que beneficia da colaboração do perito desta organização onusiana, o memorialista angolano, Simão Souindoula.

Reagrupadas em 223 páginas e patenteada pelas edições Colibri, sob o título: “ A Rainha Nzinga Mbandi. Historia, Memoria e Mito”, a compilação reúne a quinzena de comunicações apresentadas na Cidade Eterna.

Nota-se, ai, a nota de abertura, a introdução, o depoimento e o posfácio de, respectivamente, Cornelio Caley, Inocência Mata, Ana Maria de Mascarenhas e Manuel Pedro Pacavira.

Aponta-se, no bloco das contribuições de fundo, alem das personalidades já citadas, as de Abreu Paxe, Professor de literatura africana no Instituto Superior de Ciências de Educação de Luanda, Américo Kwononoka, Diretor do Museu Nacional de Antropologia e do sociólogo angolano Moisés Malumbo.

Lê-se, igualmente, as comunicações do erudito, medievista, Patrick Graille, em posto na Universidade Vassor-Wesleyan de Paris, a escritora antilhana Sylvia Serbin, de Pires Laranjeira, Professor de literatura contemporânea na Universidade de Coimbra e os italianos Mário Albano, jornalista, e Mariagrazia Russo, da Universidade “La Tuscia”.

O Brasil pagou a seu tributo a Soberana de Matamba, com aportes de Selma Pantoja, da Universidade da capital federal e Solange Barbosa, Diretora do Projeto paulista “A Rota das Liberdades”.

De salientar, como ganho da reunião cientifica organizada em parceria com a Universidade de La Sapienza e a de La Tuscia, de Viterbo, no quadro da indispensável alinho heurístico, o facto de vários autores, curiosamente, europeus, apertar a “Bíblia” da historia do Quadrilátero no seculo XVII, a famosa “Descrizione de”tre Regni Congo, Matamba et Angola…” do Padre italiano Giovani António Cavazzi da Montecuccolo.

Com efeito, emitam, varias reservas, como a própria Propaganda Fide, no seu tempo, e a escola histórica africanista, sobre a Relação do confessor e testamentário da “Muene” de Santa Maria da Matamba.

Os apresentadores sublinharam, entre outros, principais eixos, numa procura, laboriosa, de novas abordagens sobre a “Rayna Singa”, a escolha desta sedutora figura como principal sujeito literário e artístico, em vários domínios, tais como os das tiradas poéticas, das aplicações narrativas passando pelas exibições teatrais, assim como, na criatividade gravurista.

WARRIOR QUEEN

Outras novas linhas heurísticas, são, as, sobre a recorrente questão da tomada do poder da “Donna de Angola”, que se explica, naturalmente, pela violenta ocupação da” Xi a Ngola” pelas tropas portuguesas, com o seu subsequente enfraquecimento politico; a inutilidade da escolha de uma grafia “correta” do nome da “Regina”, personagem de projeção internacional, cuja fixação tem uma dezena de variantes, e a certificação deste apelido no proto-bantu, com todos os seus efeitos no continuum antroponímico e na reapropriação patriótica, contemporâneos.

Este reassumere, que e notado, igualmente, no Brasil, e uma novidade contida nas atas do coloquio.

Com efeito, observa-se neste imenso território da América do Sul, uma forte sensibilidade de inculturação, linguística e antropológica, a volta da “Inkice” Feminina.

Uma das provas desta evolução e a inserção, no Carnaval de Rio, em 2010, da cancão “Suprema Jinga – Senhora do Trono Brazngola”, pelo grupo Samba – Enredo da Escola Imperio da Tijuca.

E, entre outros factos, e esta perpetuação alem – Atlântico da gesta da Ngola, que deu oportunidade a Simão Souindoula, inspirador do encontro da cidade do Coliseu, na sua comunicação, bem prospetiva, sobre a figura da Kiluanje, de defender a Nzinga –Nzinga, como Património Intangível da Humanidade.

Aquele perito da UNESCO confirmou que a Warrior Queen, uma das Soberanas que marcou, indelevelmente, a evolução de África mercantilizada, tornando-se uma personagem de referência nas letras e artes assim que nas ciências humanas e sociais da Europa ocidental, logo no século XVIII; uma tradição mítica nas comunidades afro-americanas e afro-caribenhas e centro de interesse no quadro de centenas de projetos africanistas, no mundo inteiro, e símbolo de orgulho para milhões de africanos, constitui, incontestavelmente, uma instrutiva herança para o mundo.

Prevista para 2015, em Lisboa, cidade que se inclinou perante a inteligência politica, militar e diplomática da Jaga, e que, segundo Cavazzi, dominava “in idioma Portoghese (nel quale era versatissima), a próxima Conferencia Internacional sobre a Ngana será, sem dúvida, a da consagração do seu legado, como uma das bases morais, ao nível mundial, do respeito da soberania das nações.

PALESTRAS UNESCO/TRIANGULO KANAWA DESCENTRALIZADAS – DECENIO 2012/2022 DOS AFRODESCENDENTES

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Por Simão SOUINDOULA


O ciclo de conferências que estava a ser cumprido pelo historiador Simão Souindoula, do Comité Cientifico Internacional do Projeto onusiano da “Rota do Escravo”, na sede da União dos Escritores Angolanos, será descentralizado ao nível da cidade de Luanda.

Esta opção decorre de pedido de vários grupos de estudantes e do público que conseguiam assistir a essas preleções.

O início desta nova etapa de encontros e marcado para o dia 27 de Julho próximo, a partir das 16 horas, no Complexo Turístico Calor Tropical, sito na autoestrada da Samba.

O perito da UNESCO abordara o inédito tema:   “ A Rota ibérica da Escravatura. Portugueses leuco-dermes atestam genes bantu.”

Realçara o facto, de Portugal, nação, singularmente, expansionista, instalou, já, nos meados do século XV, contingentes de cativos negros vindos, a partir de 1441, das costas de Africa ocidental.

Esta mão-de-obra, tornada indispensável, aumentara, substancialmente, ate atingir nos meados do seculo XVI, 10% da população de Lisboa.

E, em 1700, estima-se a população escrava na aglomeração da embocadura do Tage a 30 000 indivíduos.

 Esta evolução terá efeitos antropobiológicos na população portuguesa.

Com efeito, o exame da cartografia do gene HBB  S, responsável de uma doença hematológica virtualmente ausente das populações da Europa setentrional e central, permite constatar a sua predominância ao sul de Portugal, particularmente nos vales do Sado e Sorraia.

A classificação desta componente do cromossoma, constituído de um elemento de ADN, coincida, curiosamente, com o tríptico esclavagista de Africa ocidental com, nomeadamente, a distinção bantu; este ultimo registro fazendo referencia, para o essencial, ao atual território angolano: o vasto Reino do Congo e os seus territórios aliados assim que a antiga Colónia portuguesa de Angola.

 A sessão é aberta ao público; com um convite especial aos estudantes da Universidade Independente de Angola.

 

HISTÓRIA DE AFRICA – MANUAL PARA ESTUDANTES BRASILEIROS, INCLUI A EVOLUÇÃO DE ANGOLA

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Por Simão Souindoula (Angola)

O facto e assentado no livro da Leila Leite Hernandez, intitulado “A Africa na sala de aula. Visita a Historia Contemporânea”, que acaba de ser republicado, em São Paulo, na sua segunda remessa, nas edições Selo Negro.

A autora recorda, naturalmente, sobre o Quadrilátero, o seu desenvolvimento proto-histórico, esclavagista e colonial, e propõe, em ultimo tratamento do tema do seu trabalho, a sua visão do período pós-independência do pais.

Selada num consistente bloco que se estala em 674 páginas, esta publicação e repartida numa quinzena de capítulos, na qual a antiga Professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, analisa, entre outras circunstâncias, a repartição cartográfica do continente niger em Berlim, nos cruciais meados do seculo XIX, a gradual instalação do sistema colonial, com as suas variantes, as suicidárias tentativas de políticas de assimilação ou de indigenização e os inevitáveis movimentos de resistência politica, social e cultural.

A memorialista paulistana aborda toda esta evolução no contexto marcado pela dinâmica do perspicaz pan-africanismo, os efeitos irreversíveis das duas Grandes Guerras na formulação das revindicações autonomistas, os diferentes processos de obtenção das liberdades e a teia do tenebroso apartheid.

Fixa a síntese sobre Angola no contexto da obstinada consolidação do Ultracolonialismo português, que foi favorecida pelo contínuo enfraquecimento das formações politicas que formam, hoje, Angola.

Nota, para o efeito, a severa derrota de Ambuila, em outubro de 1665, que destabilizou, definitivamente, a Federação. A investigadora da Universidade de São Paulo comprova que tropas brasileiras contribuíram no desastre kongo.

Aponta, igualmente, o desregrado tráfico de escravos que, segundo ele, envolveu, só no ano de 1530, cerca de 4000 cativos de Pinda e Angola.

Os muleques resistiram a neoescravidão que sucedeu, nitidamente, na segunda metade do seculo XIX, ao terror esclavagista.

Serão, então, registados, centenas de revoltas como, por exemplo, no Bailundo, em 1902, contra o trabalho forcado, a oposição liderada por Tulante Buta contra a exportação de contratados para São Tome, de 1913 a 1917; e a revolta do Amboim, em 1917, quando os Seles e os Bailundos rebelaram-se contra a expropriação das suas terras e o trabalho obrigatório.

A especialista brasileira assinala outras rebeliões, as ocorridas no Huambo, Congo, Humbe, nos Ovambo e nos Dembos.

DOS JORNAIS AS ARMAS

Esta atitude geral de contraposição anticolonial teve a sua declinação, inteligente, nos meios urbanos com a criação de associações, ligas e grémios, assim como, o lançamento de vários periódicos.

E, este contexto que dará origem a dezenas estruturas politicas, independentistas, clandestinas, quase todas, logicamente, de esquerda.

Essas organizações provocarão a previsível Grande Revolta Autonomista, tríptico, ocorrida no setentrião angolano, no oportuno primeiro trimestre de 1961.

Esta servira de forte alicerce moral ao nacionalismo angolano no seu progresso político, diplomático e militar, assim como, nas suas tentativas de convergência, que desembocara na independência do pais e na sua inabalável luta contra os neo Códigos Negros, na Azania. Há uma dezena de anos, a alforria arrancada, heroicamente, foi consolidada.

A pedagoga sul-americana inclui, na sua obra, em anexos, vários documentos como mapas indicativos das resistências dos Hereros e Ovambos, no início do seculo XX.

Utilizou um conjunto de fontes bibliográficas, impressionante, dentre das quais podemos assinalar, “A campanha de cuamatos” de David Martins Lima, publicado em 1908, “Angola” por Kwame Nkrumah, no crucial ano de 1962, “Estórias de contratados” de Costa Andrade, “Dos jornais as armas: trajetórias da contestação angolana” do afro-baiano Marcelo Bittencourt.

A obra, “A Africa na sala de aula. Visita a Historia Contemporânea”, que da um previsível relevo a Angola, confirma a consistência histórica das múltiplas relações, seculares, mantidas entre os dois territórios, quase paralelos do Atlântico sul.

E, o animador episódio deste relacionamento, na história recente, foi o valente reconhecimento, primus inter …, da emancipação do Quadrilátero pelo Itamaraty.

Simão Souindoula é angolano. Historiador, atualmente faz parte do Comité Cientifico Internacional da UNESCO e do proyecto “Rota do Escravo”.

“Vende-se um moleque, António, de nação Cacanje. O inferno esclavagista angolano no Novo Mundo”

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É com grande satisfação que publicamos hoje, na MISOSOAFRICA o texto da palestra realizada no último dia 28 de março: “Vende-se um moleque, António, de nação Cacanje. O inferno escravagista angolano no Novo Mundo”. O autor, Simão Souindoula, é professor e historiador perito da UNESCO e gentilmente nos cedeu o texto para compartilhar com todos aqueles que, por estarem fora de Luanda, não conseguiram assistir ao encontro.

Então amigos, boa Leitura!

…É com um sentimento de honrar um compromisso moral que tomo a palavra, hoje, aqui, sede da União dos Escritores Angolanos, no quadro da celebração da 25 DE MARCO, DIA INTERNACIONAL DAS VITIMAS DA ESCRAVATURA E DO TRAFICO TRANSATLANTICO.

Engajamento ético de historiador perante uma das tragedias económicas, entre as mais mortíferas e dolorosas da evolução da humanidade, nos últimos seculos, e qual o nosso país, pagou um dos preços mais elevados.

Facto que se constitui na má consciência do mundo, e que mereceu da parte da Organização das Nações Unidas, a declaração do Decénio 2012/2022, como o consagrado aos Afrodescendentes, depois do ano de graças, 2011…

O titulo da nossa intervenção e, recordo:

“Vende-se um moleque, António, de nação Cacanje. O inferno esclavagista angolano no Novo Mundo”.

Naturalmente, não iremos repetir o desencadeamento letal, em todas as suas etapas, do sistema esclavagista, com as suas horrendas guerras de captura, as suas intermináveis caravanas, os seus dramáticos embarques, as perigosas viagens nos porões dos navios negreiros, o esquartejamento a cavalo, etc.

Apresentaremos aspetos irrefutáveis deste inferno a partir da famosa obra de Gilberto Freyre “O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do seculo XIX”, cuja última edição, 4 edição foi publicada, recentemente, em São Paulo, na Global Editora.

Esta coletânea e uma vitrina excepcional dos reflexos somáticos da violência acumulada do longo percurso do mbika, desde a sua difícil captura, o seu exaustivo encaminhamento ao litoral, o seu agitado embarque, a sua demorada viagem nos insalubres porões de navios e a sua dura vida profissional e social.

O kalenge cumpria, severamente, o duro trabalho agrário, agro-pastoril, mineiro ou artesanal.

ASSIMETRIA TRAUMATOLOGICA

Pode-se realçar que o escravo bozal ou o seu descendente, negro ou mestiço, foi vítima de vários acidentes sobre todo o seu corpo, tais como:

– as inevitáveis perdas, acidentais,  de dentes, sobretudo os arrancados na frente;

– as animalizantes cicatrizes de queimadura, marcas de proprietários de escravos;

– a deformação de dedos, consequência de doenças tais como o panarisco ou de trabalho com matéria química como o cal ou a levedura;

– as varias deformações corporais resultados do mal de Luanda, uma forma de escorbuto;

– a corte de dedos, acidentais, ou resultados de punições e de caídas a armadilhas contra fugitivos;

– as previsíveis enrugas na testa;

– os sinais de demência;

– o defeito de balbuciante;

– a queda de cabelo;

– a assimetria traumatológica.

Os comunicados selecionadas pelo autor de Casa-Grande e Senzala confirmam a instalação, maioritária, dos okalumba originários do actual Quadrilátero, nas três cidades, esclavagistas, do litoral atlântico, onde se editavam os jornais colecionados: Pernambuco, Recife e Rio de Janeiro.

São o Diário de Pernambuco (Recife) e o Jornal de Commercio( Rio de Janeiro).

As entidades de origem dos ombutu são:
Angola ou Mongola, Congo, Cacanje, Camundongo, Cabinda, Benguela ou Banguela, Cabunda, Rebolo e Quiçame.

PRESSÃO A FOGO

E, assim, que apontamos nas dezenas de anúncios relativos aos kapinji, os seguintes:

– João, de nação Angola, de 20 anos de idade, residente em Pernambuco, cego do olho esquerdo, ao pé do mesmo e sobre a fronte tem bastantes cicatrizes, a parte esquerda da cara parece inchada;

– Caetano negrinho, de nação Angola, de 12 anos, residente em Recife, apresenta uma cruz no braço esquerdo, marcada sob pressão de fogo e, no meio da cabeça, tem falta de cabelo, consequência de carregamento, excessivo, de peso;

– Joaquim, de nação Cacanje, não tem dedo nos pes, por ter trabalhado, durante muito, com o cal. Tem sinais de surra;

– João, de nação Cabinda, residente em Recife, com a perna direita um tanto arqueada, que tinha também sua coroa de martírio pelo uso de carregar peso;

– Francisco e Pedro, moleques, de nação Congo, com, o primeiro, algumas cicatrizes novas de relho pelas costas e, ambos, nas juntas dos dedos das mão, calos, efeito de amassar pão;

–  Maria, de nação Benguela, 40 anos, cabeça chata, de tanto carregar peso, já tremia, e quando andava, era cambando.

– uma preta de nome Joaquina, de nação Cancanje, residente em Pernambuco, entre 30 e 32 anos, com falta de dente num lado.

– António, nação Cabunda, recifense, entre 20 e 22 anos, com pernas que parecem inchadas, com marcas bem claras de feridas por estar sempre nos ferros;

– Cândida, de nação Quiçame, entre 18 e 20 anos, muito magra, com bastantes verrugas sem uma perna. Tem a boca fechada com um cadeado.

– uma moleca de Angola, de nacao cacanje, molesta de surrada, com varias marcas do proprietário, sendo uma bem clara no braço esquerdo.

– e,  a negra Rita, de nação Cabinda, de mão direita aleijada, dobrada pelo meio.

Esses anúncios atestam as representações de várias iconografias do seculo XIX, saídas, principalmente, de Rio Janeiro, com gentio de Angola, portador de gancho fechado a cadeado, de algemas e de lubambos nos pés.

Mera mercadoria, os jornais continham, igualmente, varias ofertas de trocas de omumbe.
Maltratado, descarnado, com ferro ao pescoço e suporte para chicote, o kapinji era sujeito a tendência suicidaria.

CONCLUSÃO

Catástrofe humano que se abateu sobre a África, o tráfico negreiro e a escravidão nas Américas e Caraíbas, fez centenas de milhares de vítimas.
Esta evolução, extraordinariamente, violenta, e rememorada em vários documentos de arquivos, tais como nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX.

Constituindo a maioria da mão-de-obra escrava, instalada no imenso Brasil, os malungos congos /angolas, serão, logicamente, os mais referenciados nos avisos.

A leitura destes comunicados revela o universo implacável em que vivia e trabalhava, os serviçais vindos da Colónia e do Reino da contra-costa.

Podemos afirmar, depois da nossa análise, que o inferno em que vivia os mbika no Brasil, não era a via mais adequada para instituir a civilização luso tropicalista, a grande teoria de Gilberto Freyre.

Muito obrigado!

Simão Souindoula

“A Rainha Nzinga seduziu a França” (*)

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Por Simão Souindoula (Angola)


Resumo

Uma das figuras emblemáticas da historia de África e, sem duvida, a  « Dupla Soberana », que reinou no Ndongo, logo em 1623 e na  Matamba, a partir de 1630.

A reputação da tenaz « Ngola » chegara, rapidamente, a Europa ocidental, e, particularmente, no Hexágono.

Diversas iniciativas de natura científica, literária e artística serão, aí, notadas.

Essas consubstanciaram-se, do século  XVIII ate aos nossos dias,  pela edição de romances a carácter  histórico, a evocação da figura da temível “Kiluanje” em várias obras clássicas assim como a publicação de relações antigas e de crónicas biográficas.

E, e  Paris que dará, nos meados do século XIX à filha de Kenkela  – ka – Nkombe, um rosto.

Sensível a este património, o « Pais das Artes e Letras » apoiara, durante a última década, em quadros bilateral ou multilateral, diversas acções visando a um melhor conhecimento da extraordinária historia da  « Senhora de Santa Maria de Matamba »: organização de jornadas culturais,  colóquio internacional, conferências académicas, publicações, impressão de suportes têxteis, etc.

Abstract da conferencia do Historiador Simão Souindoula a ser presentada o día 13 de janeiro de 2012, em Luanda.

Simão Souindoula é angoleño. Historiador, perito da Unesco e Vice-presidente do Comité Cientifico Internacional da UNESCO, no qual desenvolve o projeto “a Rota do Escravo”