Por Jomo Fortunato (*)

Com a dispersão dos instrumentistas dos principais agrupamentos musicais, o advento da independência de Angola e o encerramento das gravadoras mais conceituadas, surgiu o fulgor de uma geração que despontou nos anos oitenta e encontrou na rítmica do semba, na música congolesa, nas mornas e coladeras cabo-verdianas, na generalidade da música ocidental, com destaque especial para os Beatles, Supertramp, Pink Floyd, e, principalmente, na absorção do zouk, os motivos experimentais, mais substanciais, da sua evasão criativa.

Do Congo, Brazaville, onde nasceu no dia 14 de Abril de 1964, emergiu um nome desta geração – que já está gravado na história contemporânea da música angolana – que deu consistência à formação de um período que ficou marcado pelo surgimento do género kizomba – trata-se de Eduardo Paim Ferreira da Silva.

Congo, Dolizie, Cabinda, Luanda, onde termina a 4ª classe, e, mais uma vez Cabinda – onde retorna em consequência da explosão escolar em Luanda – para concluir o ciclo preparatório, constituem a rota de um cantor, compositor e instrumentista, que transformou o ambiente artístico luandense, movimentando, musicalmente, os meios académicos da sua época, socorrendo-se daquilo que era possível reaproveitar, das novidades que então surgiam no domínio das modernas tecnologias de criação e produção musical.

Estamos em 1976, e Eduardo Paim dá forma a um percurso, localizado, inicialmente, no Lar dos Estudantes de Cabinda, onde conhece o músico Arcanjo, guitarrista ritmo do conjunto Bela Negra, e famosos daquela província como: Timex, Petit Louis, a poetisa Amélia Dalomba, incluindo os integrantes do Super Coba de Cabinda. Nesta época Eduardo Paim trauteava a canção: “Eh… avante povo/ África em luta/ pela libertação…”, um tema de intervenção, dedilhado, de forma apaixonada e incipiente, na primeira fase de contacto com o violão acústico.

Em 1975, ao longo do ano lectivo que decorria, ainda em Cabinda, Eduardo Paim integra uma pequena formação escolar, com 11 anos, fazendo a sua primeira e precoce aparição pública, no Cine Chiloango, por ocasião da festa do final do ano lectivo, numa sessão em que foi efusiva e vivamente aplaudido.

De retorno a Luanda, em 1979, munido dos preciosos ensinamentos do Arcanjo, Petit Louis e Timex, cria os “Os puros”, na escola Njinga Mbande, com Bruno Lara e Levi Marcelino, jovens que transportaram, para as harmonias das guitarras e flautas, os textos poéticos de Agostinho Neto, uma homenagem ao “Poeta Presidente”, falecido no mesmo ano.
Em 1981, decidido a prosseguir os estudos, tenta, sem simpatia por uma opção que se tornou involuntária, o curso de siderurgia, no Instituto Industrial Pedagógico do Huambo, onde experimenta novas sonoridades musicais. Do planalto central, colheu a aprendizagem da notação dissonante, com jovens do instituto, uma técnica que veio a influenciar, de forma positiva e inovadora, a estética dos SOS.

A queda da folha verde

De volta a Luanda, desta vez na Escola Industrial “Makarenko”, Eduardo Paim reencontra velhos amigos dos “Puros”, primeiro Levi Marcelino e Bruno Lara, e depois Chico Madne, Bibi, Nelson, Ferreira, Simmons, e o poeta Carlos Ferreira (Cassé), os dois últimos na Rádio Nacional de Angola, constituindo o início da fundação do grupo musical “SOS”, estamos em 1979.

Carlos Ferreira (Cassé), acabou por ser o autor do texto, “SOS precisa-se”, canção que nunca chegou a ser gravada, da qual respigamos alguns versos: “A folha verde está cair/ a razão está a secar/ quem estiver para desistir é melhor se enquadrar… Eu não sou um feiticeiro/ para adivinhar toda história/ mas vamos lá então saber/se ficou ou não na memória…/ SOS chegou, SOS precisa-se (refrão)”. Esta canção acabou por ser o mote homónimo e inspirador da designação do grupo.

“Chão da gente” (1982), o primeiro álbum com textos de Carlos Ferreira, foi o primeiro LP do SOS, editado pelo INALD, que incluía o sucesso, “Dizer adeus”, interpretado pela voz feminina de Armanda Fortes.

A formação mais consistente dos SOS, acabou por integrar Eduardo Paim (teclas e guitarra solo), Levi Marcelino (guitarra ritmo), Bruno Lara (contrabaixo e teclas), Chico Madne (baterista), Bibi (pecurssão), Nelson (viola baixo), Carlos Ferreira (textos) e Ferreira (guitarra solo), o último abandona o grupo por questões de saúde, sendo depois substituído pelo guitarrista Simmons Mancini.
Importa referir que, na primeira fase do SOS, ninguém estava orientado para executar somente o seu instrumento, quase todos tocavam tudo.

Eduardo Paim emigra, provisoriamente, para Portugal, em 1988, sentenciando a morte do grupo e levando consigo duas experiências: a do SOS, enquanto grupo, e a passagem, como instrumentista e produtor musical, na Rádio Nacional de Angola.
De volta a Luanda, com o SOS desfeito, surgem os Kanauas, com Eduardo Paim (teclas e programação da caixa de ritmos), Maninho (baixo), Ruca Van-Dúnem (teclas e voz), Moniz de Almeida (voz) e Simmons Mancini (guitarra), grupo responsável pelos sucessos iniciais de Moniz de Almeida.

Os projectos musicais “Kijila I, II e III”, resultantes do reencontro de Eduardo Paim, em Portugal, com Ruca Van-Dúnem, Ricardo Abreu e Luandino, podem ser considerados um marco importante na formação da estrutura rítmica do género kizomba.

Nos anos oitenta, vivia-se um forte fluxo migratório de angolanos em Portugal e imperava a música de Bonga, Raúl Indipwo (do Duo Ouro Negro com Milo Victória Pereira), Tropical Band, grupo influenciado pela rítmica de Eduardo Paim, e começava a entrar em cena o lirismo de Waldemar Bastos, com o LP “Estamos juntos” (1983), gravado com conceituados músicos brasileiros.

Foi neste ambiente nostálgico que surge o ritmo contagiante de Eduardo Paim, com “Luanda minha Banda” (1990), um álbum atrelado a um texto com linguagem actualizada pelo calão do quotidiano luandense e expressões pitorescas de reconhecimento imediato, razões principais do sucesso da música de Eduardo Paim na comunidade angolana, residente em Portugal.

Origem do género Kizomba

Numa altura em que o zouk dominava as festas (kizomba) e parte substancial das emissões musicais radiofónicas das estações de Luanda, o que se ouvia e se dançava, frequentemente, nas kizombas, acabou por adquirir o rótulo do género que então se formava. O género kizomba, encontro rítmico do semba com o zouk, a conhecida música das Antilhas Francesas, acabou por ser o resultado desta fusão, criando-se um estilo que se emancipou no conteúdo textual e na estrutura rítmica.

Embora tributário das técnicas de construção textual de Paulo Flores e dos préstimos, a nível dos sintetizadores, de Ruca Van-Dúnem, Eduardo Paím é, inequivocamente, um nome de referência incontornável na história da Música Popular Angolana, pela influência que exerceu nos jovens da sua geração e nas que se afirmaram depois dos anos oitenta.

É, igualmente, considerado, unanimemente pela crítica, um dos fundadores do género kizomba. Não se deixa aqui de referir que os projectos musicais “Kijila I, II e III”, resultantes do reencontro de Eduardo Paim, em Portugal, com Ruca Van-Dúnem, Ricardo Abreu e Luandino, que podem ser considerados um marco importante na formação da estrutura rítmica do género kizomba.

Produtor musical

Eduardo Paim revelou-se não só um intérprete e compositor mas também um produtor musical de múltiplos recursos.

Importa salientar que o produtor musical, também designado produtor discográfico, é a figura responsável pela conclusão de uma gravação que se considera finalizada para o lançamento.

Neste sentido o processo das primeiras produções de Eduardo Paim já incluíam a gravação, aconselhamento dos músicos, escrita, incluindo a supervisão do processo de mistura, podendo ser considerado o pioneiro no uso de sintetizadores e outros processos análogos, como a caixa ritmos, uma aprendizagem que teve a inegável contribuição de técnicas já dominadas por Ruca Van-Dúnem.

É tanto assim, que a estética musical de Eduardo Paim, enquanto produtor, teve suma importância nas carreiras de importantes cantores e no curso da própria Música Popular Angolana, mais recente.

Paulo Flores, Diabik, Clara Monteiro, Nelo Paim (o promissor irmão mais novo de Eduardo Paim), Mamborró, Jacinto Tchipa, Moniz de Almeida , Tropical Band e Ruca Van-Dúnem, citamos os mais importantes, são exemplos da influência e do foco irradiador das teclas de Eduardo Paim, cuja sonoridade electrónica, atravessou uma parte substancial da música dos últimos vinte anos.

O início da carreira de Paulo Flores teve a produção e contribuição de Eduardo Paim. Temas como: “Cheri”, “Kapuete kamundanda”, e “Isso é boda”, as primeiras composições de Paulo Flores, resultaram de um convite formulado a Eduardo Paim por Carlos Aberto Flores, pai do Paulo Flores.

Discografia de Eduardo Paím

Também conhecido por General Kambuengo (teimoso, resoluto), Eduardo Paim obteve, durante a sua carreira, três discos de ouro e de prata, distinções outorgadas por editoras portuguesas, atribuídas pela soma de cinquenta mil discos vendidos, com os álbuns: “Kambwengo” (1994), “Do kayaya” (2002), e “Ainda há tempo” (1996).

A canção “Rosa Baila”, do álbum “Kambwengo”, um dos paradigmas da discografia de Eduardo Paim, que retrata o perfil da típica mulher angolana, esteve nas paradas de sucesso da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), durante meses.

“Luanda minha banda” (1990), “Mujimbos” (1998), e “Maruvo na Taça” (2006), constitui um conjunto discográfico, de mais de vinte anos de carreira. O seu último CD, muito mais participado, teve a contribuição de cantores como: Fernando Girão, Nancy Vieira, Bonga, Voto Gonçalves, Dom Caetano, Ângelo Boss, Negro Bué e Matias Damásio.

O CD “Luanda minha banda”, revelou-se, de igual modo, um sucesso, sem precedentes, na carreira de Eduardo Paim, um álbum que alinhava os temas: “A Minha Vizinha”, “Kutonoca”, “É Tão Bom”, “Luanda Minha Banda “, “Som da Banda”, “Nagibo” e “Kizombada”.

Neste disco, Eduardo Paim trabalhou com o guitarrista guineense Justino Delgado e o cantor Guilherme Silva, um artista moçambicano que já partilhou o palco com artistas como: Julio Iglesias, Tina Turner, Juan Luis Guerra, Cesária Évora, Tito Paris, e Rui Veloso.

A economia de meios instrumentais, um dos méritos de Eduardo Paim, em estreita colaboração com o guitarrista Simmons Mancini, revelou-se como uma das estratégias deste álbum, assim como o uso dos sintetizadores, cuja funcionalidade acabou por ser o único recurso na época.

Para um artista com um longo percurso artístico, Eduardo Paim defende que “quando não tens seguidores, significa que não atingimos o alvo, porém, quando há muitos, podemos nos perder entre os que nos seguem”.

(*)FUENTE: JORNAL DE ANGOLA

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