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Angola – Massacre de Outubro em Angola completa 20 anos

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Por Madalena Sampaio

Há 20 anos, Angola presenciava mais um episódio sangrento. O massacre de outubro de 1992 matou milhares de apoiantes da UNITA e da FNLA. Cenário violento que jamais será esquecido por quem o presenciou.

Nesta terça feira (30.10), completam-se 20 anos sobre o massacre iniciado a 30 de outubro de 1992 na capital angolana, Luanda. No espaço de três dias, foram assassinados milhares de apoiantes da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) e da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).

O massacre ocorreu depois de uma fase de paz que se seguiu aos acordos de Bicesse, celebrados em 1991. A guerra civil entra então numa nova fase e prolonga-se por mais dez anos.

A DW África recolheu algumas memórias sobre uma data que não foi esquecida, mesmo que o tema continue a ser tabu em Angola.

Filomeno Vieira Lopes descreve o massacre à DW África Filomeno Vieira Lopes descreve o massacre à DW África

Assassinato surpresa

“Foi naturalmente um dia horrível. Estava-se a discutir a paz”, começa Filomeno Vieira Lopes, atual líder do Bloco Democrático, partido da oposição angolana. Ele lembra-se bem da data que interrompeu o processo de paz em Angola.

Lopes estava fora de casa quando começaram os bombardeamentos. Foi apanhado de surpresa, sobretudo numa altura em que se tentava encontrar soluções políticas para o problema. “Matava-se tudo. Matavam-se todos os que tivessem alguma ligação com a oposição.”

Milhares de apoiantes e até dirigentes da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) são assassinados em Luanda e em outras localidades do país. Também da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) há vítimas.

“É a primeira vez, na história da guerra civil angolana, que políticos morrem em combate”, escreve o jornalista Emídio Fernando no livro Jonas Savimbi: No Lado errado da História.

José Eduardo dos Santos é presidente de Angola há 33 anos. Na foto, com a esposa
José Eduardo dos Santos é presidente de Angola há 33 anos. Na foto, com a esposa

Perguntas sem respostas

Até hoje, permanece por esclarecer quem ordenou o massacre. O número de vítimas também nunca foi confirmado, mas estima-se que tenham morrido entre 10 mil e 50 mil pessoas. Números que Mário Pinto de Andrade, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contesta:

“Acho que, às vezes, a comunidade internacional empola. Houve uma manipulação desses resultados. Eventualmente fala-se das pessoas que morreram pela UNITA, mas também morreu muita gente pelo lado do governo. A UNITA quando ocupou o Uíge matou muita gente do MPLA e quando ocupou o Huambo, fez o mesmo.”

Os assassinatos ocorreram após as eleições presidenciais e legislativas de 1992, as primeiras na história do país. Nem o candidato do MPLA, José Eduardo dos Santos, até hoje no poder, nem o seu adversário, Jonas Savimbi, da UNITA, conseguiram maioria absoluta nas presidenciais.

Mas a segunda volta nunca se realizou. A guerra civil reacende-se com o massacre e prolonga-se até quatro de abril de 2002. O massacre também dizimou muitos membros dos grupos étnicos Ovimbundu e Bakongo, historicamente tidos como adversários do MPLA.

As últimas eleições angolanas deram novamente vitória a José Eduardo dos Santos As últimas eleições angolanas deram novamente vitória a José Eduardo dos Santos

Fato desconhecido

O jornalista e analista político Orlando Castro afirma que, nessa altura, o MPLA tentou “neutralizar todos os que pensavam de maneira diferente do regime”:

“Foi uma tentativa de decapitar a UNITA. Tanto que fala-se em milhares de mortos, eventualmente até em cerca de 50 mil. É certo que também o próprio vice-presidente da UNITA, Jeremias Chitunda, tal como Mango Alicerces [secretário-geral da UNITA] e Elias Salupeto Pena [sobrinho do líder do partido, Jonas Savimbi] foram mortos nesse massacre. Na história do MPLA, os massacres, ou as purgas, ou o que se lhe quiser chamar, são uma regra estratégica do regime, mesmo até para os próprios simpatizantes do MPLA.”

O tema ainda é tabu em Angola e desconhecido por muito jovens. Daí a importância de uma boa estratégia de reconciliação, desde que não se branqueie a verdade, defende Orlando Castro:

“Estes massacres são os mais visíveis, quer o de 27 de Maio de 1977, quer o de 1992, são os mais visíveis pelo número de vítimas, mas o MPLA tem muitas outras histórias porque ao longo da guerra – embora a UNITA obviamente também tenha cometido grandes erros – o MPLA, até pelo poder militar que tinha, massacrou muita gente inocente. Os jovens não conhecem esta história. A paz e reconciliação em Angola nunca se conseguirá com base na mentira.”

Mário Pinto de Andrade concorda: “ninguém pode negar a História, mas tem de se falar com realismo.”

Reportagem publicada na DW. Ouvir aqui.

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VIVIMOS AFRICA – 1 / Entrevista com Orlando Castro

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Por Bárbara Igor (MISOSOAFRICA)

Orlando Castro, é na atualidade uma das vozes críticas mais implacáveis contra o governo de José Eduardo dos Santos.  Residindo em Portugal desde o ano 1975, seu trabalho como jornalista não tem estado livre de dificuldades, o que felizmente, não tem sido um problema para continuar com o exercício do que ele define como: “o dever sagrado de dar voz a quem não tem voz”.

Autor de livros como «Cabinda – ontem protectorado, hoje colónia, amanhã Nação» (2011) e «Alto Hama – Crónicas (diz)traídas» (2006), livro com prefácio de Eugénio Costa Almeida, no qual da conta da sua trajetória no Portal Alto Hama, site informativo de tipo crítico, dedicado à atualidade do Conjunto de Países de Língua Portuguesa.

ORLANDO CASTRO, JORNALISTA

BI: Para muitos, Orlando Castro representa uma das caras visíveis na luta contra o governo de José Eduardo dos Santos. Para além da sua responsabilidade como jornalista, o que lhe faz insistir diariamente nesta tarefa, muitas vezes pouco reconhecida e até “ingrata”?

OC: É, de facto, uma missão muito ingrata e até perigosa. Não faltam ameaças de todo o génereno, algumas até de morte. Mas, como angolano e como jornalistas, tenho o dever (para mim sagrado) de dar voz a quem não tem voz. E 70% de angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome. E tudo isto num país muito rico. Portanto, enquanto houver um angolano com fome por culpa de um presidente e de um governo que só trabalha para os poucos que têm milhões e não para os milhões que têm pouco, a minha consciência exige que continue a lutar.

BI: Pouco se sabe no exterior sobre a situação dos opositores ao governo de José Eduardo dos Santos. Poderia nos falar um pouco da sua experiência, num país com ligações muito importantes com Angola, como é o caso de Portugal?

OC: Sobretudo depois da morte, há dez anos, do líder da UNITA, Jonas Savimbi, terminou de facto a oposição ao regime de José Eduardo dos Santos. E se internamente, ou seja dentro de Angola, todos os que pensam de forma diferente do MPLA são culpados até prova em contrário, também no exterior (em Portugal, por exemplo) os que não são favoráveis ao regime sofrem a perseguição própria de países que não querem que o actual dono de Angola se zangue. Eduardo dos Santos, directa e indirectamente, é dono de grandes empresas portuguesas, nomeadamente de comunicação social. E por essa razão há caa vez menos jornalistas a falar do que se passa em Angola. E, também por isso, os partidos que em Angola lutam contra o regime têm pouco tempo de visibilidade no exterior e ainda menos no interior.

Saí de Angola, oficialmente, no final de 1975. Durante os anos de guerra civil voltei várias vezes,entrando no país de forma clandestina segundo o regime instaurado em Luanda, e de forma natural de acordo com o partido que lutava contra o regime, a UNITA. Hoje estou impedido, na prática, de entrar no meu país. Todas as tentativas de entrada legal são boicotadas e adiadas “sine die”.

BI: Segundo o que podermos (podemos) ler diariamente nos seus artigos, seu trabalho além de ser informativo, tenta reforçar a ética jornalística. Como é que surge este interesse por exemplificar o trabalho do jornalista?

OC: Bom! Cada vez mais, sobretudo tomando como referência Portugal e Angola, o jornalismo deixou de ter regras deontológicas e éticas, passando apenas a seguir as leis da oferta e da procura, transformando-se num mero produto comercial, numa mera mercadoria. Ora, para mim, o jornalismo deve ser uma actividade em que a verdade é o objectivo essencial e único. De facto, a verdade pode doer muito, mas só ela pode curar. É, aliás, isso que o público (que é, afinal, o nosso único patrão) exige de nós. No entanto, quando o “jornalista” escreve apenas o que lhe mandam, o que dá dinheiro, não passa de um mercenário. Aprendi que se o jornalista não procura saber o que se passa, é um imbecil. E que quando sabe o que se passa mas se cala, é um criminoso. É por isso que há cada vez mais imbecis e criminosos.

BI: Tem alguma explicação para a falta de rigor ou de ética jornalística da que faz diariamente denuncia?

OC: Os jornalistas, mais do que informar, mais do que formar, têm de vender. Vender, vender sempre mais. Os jornalistas são os montadores que, de acordo com o mercado, alinham as peças de um crime, de um comício, de um atentado ou de um buraco na rua. Se o que vende é dar uma ajuda ao partido do Governo para que este ganhe as próximas eleições, são essas as peças que têm de montar, nada contando a teoria da isenção que é tão do nosso teórico agrado. Se o que vende é divulgar os produtos da empresa «X», são essas as peças que têm de montar, passando por cima do facto de essa empresa eventualmente não pagar os salários aos seus trabalhadores, promover criminosos despedimentos ou apostar no trabalho infantil. Se o que vende é dar cobertura às ditaduras (sejam as de Robert Mugabe ou José Eduardo dos Santos), são essas peças que têm de montar, calibrando-as da forma a parecerem dos melhores exemplos democráticos.

Orlando Castro, Angola.

BI: Na minha experiência, muitos angolanos que dizem serem “apolíticos”, explicam não ter reparo nenhum contra o governo do seu país, nem muito menos ter visto repressão aos jornalistas. Como pode se explicar isto?

OC: Para ver não basta olhar. É preciso querer ver. Aliás, o pior cego é exactamente aquele que não quer ver. Tal como no tempo da União Soviética, com a qual o regime angolano aprendeu tudo o que sabe, ou no tempo da ditadura portuguesa de Salazar, existe em Angol uma cortina de ferro que separa os filhos dos enteados. E quem quiser ser filho, quem quiser ter emprego, ter casa, ter assistência médica… tem de ser “cego”. Isto é, tem de saber que o MPLA é Angola e que Angola é o MPLA. Não podem, por isso, ver o que se passa. Não podem defender a igualdade de direitos e, muito menos, o direito a uma opinião diferente. A situação está a mudar, a as manifestações dos jovens são prova disso. Mas, mesmo assim, por uma questão de sobrevivência, os angolanos só conseguem ver o que o regime quer que eles vejam.

BI: Falando na sua própria linguagem, dizemos que existem ditaduras fortes e ditaduras brandas, e assim também ditaduras que representam um benefício para as potencias econômicas e culturais. Na atualidade, como é que o mundo vê o fato de ser o MPLA o único partido político no poder desde a independência angolana?

OC: O mundo, num sistema hipócrita, apenas olha para as riquezas de Angola. E enquanto o regime continuar a negociar, a vendar petróleo e a comprar armas, vai manter o estatuto de bestial. Sempre foi assim. Foi assim com a Tunísia, com a Líbia, com o Egipto. Se um dia o regime cair (e vai mesmo cair), as potências internacionais vão dizer que, afinal, Eduardo dos Santos era um terrorista e passarão a negociar com quem estiver no poder. Reconheço, contudo, que é mais fácil ao mundo negociar com ditadores do que com democracias. É mais fácil negociar com um regime que tem no comando há mais de 30 anos a mesma pessoa, do que com um que seja democrático e que por isso vá alternando os dirigentes. Por outras palavras, é mais fácil corromper sempre os mesmos.

BI: Não seria novidade uma nova vitória do MPLA nas eleições. Em sua opinião, quais deveriam ser  as novas diretrizes do governo quanto ao desenvolvimento do país em assuntos do tipo: infraestrutura, superação da pobreza, mortalidade infantil, liberdade de expressão.

OC: Não. Não é novidade que o MPLA vai ganhar. Aos anos que está no poder, vai voltar – tal como em 2008 – a pôr os mortos a votar. Será difícil acreditar que o regime alguma vez vai pôr o interesse do povo acima dos seus interesses. Como qualquer ditadura, Angola terá sempre duas faces. Uma de luxo e uma de miséria. Até por razões étnico-históricas, o MPLA nunca estará interessado em desenvolver as zonas do país onde vivem povos que historicamete pertencem a uma outra sociedade. Foi, aliás, esse elitista política de segregação em que os povos do Norte, nomeadamente da região de Luanda, apreciam como sendo de uma casta superior, que levou a que a UNITA nunca desistisse de lutar. Os povos ovimbundos e bailundos sempre foram considerados pelo regime como seres inferiores. As suaz regiões vão, por isso, continuar a ser as menos desenvolvidas. Por alguma razão, no dia 24 de Fevereiro de 2002 alguém disse: “sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o mais velho (Jonas Savimbi), agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados.

BI. Qual é sua previsão para o futuro de Angola como um Estado-Diretor? E em relação ao Palop?

OC: Angola, sobretudo porque é uma potência económica e militar, acabará por ter um futuro risonho. E, creio, não demorará muito tempo. A população está cansada das más acções do regime e vai, espero que pacificamente, apostar na mudança democrática e na verdadeira criação de um Estado de Direito. E quando isso acontecer, aliando o poder económico à credibilidade democrática, Angola vai ser a locomotiva do desenvolvimento dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Nesta altura, como se viu pela sua recente interferência na Guiné-Bissau, os resultados não doram bons porque Luanda não se apresentou como um estado democrático, facto que lhe retirou toda a margem de manobra.

BI: Continuando com Guiné-Bissau, como vê a presença da MISSANG e sua saída na altura do golpe de Estado?

OC: Como referi no final daresposta anterior, a MISSANG foi vista, e com razzão, como acto de colonialismo. Fosse Angola um regime democrático e um verdadeiro Estado de Direito, ou seja, um exemplo de boa governação (como acontece com Cabo Verde) e as autoridades guineenses não teriam problemas em aceitar a sua presença. Por alguma razão os guineenses perguntavem: quem é Angola para mandar uma missão militar para a Guiné-Bissau? E tinham razão. Ao factor militar propriamente dido de Angola faltou a legitimidade que seria total se o regime fosse democrático.

Orlando Castro, África.

BI: Poderia nos explicar como é que entende a atualidade africana, quais são seus maiores problemas a resolver, e quais deles tem alguma possibilidade real de serem resolvidos pelos próprios africanos.

OC: Todos os problemas africanos, e são muitos, devem ser resolvidos em primeiro lugar pelos africanos. África tem (quase) tudo para ser um grande continente e até, daqui a algumas gerações, uma grande espaço de desenvolvimento económico, humano e social, de harmonia mais ou menos estável. Deus, seja Ele quem for, deu a África tudo o que era preciso para ser um doas mais prósperos continentes. Infelizmente este espaço foi criminosamente dividido à régua e esquadro pelos colonizadores europeus que, por se acharem superiores, se limitarem (com poucas excepções, entre as quais – apeser de tudo – Portugal) a explorar as suas riquezas. E esta divisão que originou, e origina, as endémicas guerras. O mesmo povo foi, por exemplo, dividido por vários países e obrigado a conviver com raças totalmente diferentes. Ora isso é algo que, no contexto africano, gera guerras fronteiriças. Se a isso se juntar o facto de as grandes potências querem vender armas a troco das riquezas naturais…

BI: Para além dos problemas mais urgentes que alguns dos países da África apresentam, o problema da instabilidade política e a falta à democracia, assim como os constantes golpes de estado, parecem ser a gênese das dificuldades. Como é que este tipo de situação ainda não pode se controlar ou evitar?

OC: É preciso que a comunidade internacional tenha a coragem, que eu acho que não tem, de reequiacionar a divisão territorial de muitos países, criando novas fronteiras e procurando juntar o que é passível de se juntar. Com tempo, com a imprescindível colaboração dos africanos, será possível ver que as actuais fronteiras foram herdadas dos regimes coloniais (recentes em termos históricos) e não correspondem à verdade dos povos que ocupam essas regiões. Em muitos caso, mais do que querer instaurar a democracia é urgente reinventar a geografia de África.

BI: Muito se tem falado de um Renascimento do Continente africano, e aos poucos vemos um crescente interesse pelos assuntos relativos à África. Como é que entende esta situação?

OC: África está na moda, mas nem sempre pelas melhores razões. São poucos os que, por exemplo, se atrevem a defender a tese de que as fronteiras africanas devem ser reestruturadas se se quiser pacificar o continente. A maioria apenas pretende explorar as riquezas e, como se isso não bastasse, vender armas. Isto porque os africanos vão se matando uns aos outros… mas as riquezas continuam lá à espera de quem as vá explorar.

BI: Na época das independências, países como Angola, Serra Leoa e África do Sul pareciam ver na América Latina um exemplo a seguir. Hoje se fala de África olhando com crescente interesse para China. Qual é sua visão sobre isto?

OC: Creio que a América Latina é, do ponto de vista da concivência política e do rejuvenescimento económico, um exemplo ponderado por muitos países africanos. Pena é que sejam os chineses a tomar conta dos países africanos. É claro que a China, desde logo também pelo apoio que deu aos movimentos de libertação, está a tirar dividendos da aposta que fez em África. De qualquer modo, penso que as novas gerações de africanos querem acabar com esse domínio e virar-se para países que, apesar de tudo, são referência mais importantes. Tirando o aspecto de um enorme mercado consumidor e produtor que é a China, a América Latina pode desempenhar um papel relevante não só em África como na Europa. Não pode, contudo, perder o comboio.

BI: Para fechar, poderia fazer uma reflexão em relação a seu trabalho como jornalista e seu interesse e/ou responsabilidade com África.

OC: Há com certeza razões profundas para que eu acredite (sem grande sucesso, acrescente-se) que é preferível ser salvo pela crítica do que assassinado pelo elogio. Há com certeza razões profundas para que eu acredite (sem grande sucesso, acrescente-se) que é preferível andar todos os dias, a todas as horas, com a coluna vertebral, em vez de a deixar em casa. E essas razões profundas nasceram em Angola, nasceram em África. Tem sido uma tarefa complicada? Tem sido e continuará a ser. Porquê? Por que é muito forte a pressão dos que nos querem acéfalos, autómatos e, como se isso não bastasse, invertebrados também. Foi nas ruas da cidade do Huambo que aprendi, valores que ou se têm ou não se têm. Não se compram. Aprendi que, tal como Angola, África não se define – sente-se.

 Revisão de Textos: Virgínia Gomes (BH)

Dez anos de paz em Angola – Entrevista com Orlando Castro

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No próximo dia 4 de abril, Angola comemora um aniversário importante: dez anos de paz. As mudanças são visíveis no país, mas analistas veem um longo caminho até que o desenvolvimento chegue ao lar de todos os angolanos.

Talvez tenha sido a guerra colonial um sinal do que viria depois. Foram mais de três décadas de conflito armado entre o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), atualmente o partido governista, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), maior força da oposição.

Angola foi alcançar a sonhada paz a 4 de abril de 2002 – há uma década. Foi preciso que o líder rebelde Jonas Savimbi, à frente da UNITA, morresse em combate para que se assinasse um acordo de paz.

Com o fim da guerra, muito se avançou. Exploram-se petróleo e diamantes. Constrói-se. Reconstrói-se. Os angolanos ganharam o direito de ir e vir, mas ainda precisam conquistar muitas outras possibilidades, como a liberdade de expressão e de manifestação. É o que conta à DW África o jornalista e analista luso-angolano, Orlando Castro, na entrevista a seguir.

“Um período de dez anos sem que a linguagem das armas seja a que mais se fala no país é logo um ponto muito importante” (Orlando Castro)

DW África: Quais são, no seu ponto de vista, as maiores conquistas nestes dez anos de paz?

Orlando Castro: Desde logo, a própria paz. Um período de dez anos sem que a linguagem das armas seja a que mais se fala no país é logo um ponto muito importante. Há um balanço positivo no sentido da confraternização entre irmãos que estavam desavindos há muitos e muitos anos.

Do ponto de vista da economia do país, recuperaram-se muitas das infra-estruturas destruídas pela guerra, nomeadamente estradas e pontes. Do ponto de vista da construção civil, estes dez anos foram importantes. Mas serviram, ao mesmo tempo, para revelar a macrocefalia do poder e de Luanda, porque a Angola real foi esquecida. Não se investiu em fontes de produção, em fábricas, em escolas e em hospitais.

Portanto, foram dez anos em que muito se perdeu satisfazendo clientelas dos dois partidos principais, beligerantes durante a guerra, que estavam ávidas a se beneficiar do espólio dessa guerra – e que assinaram, de um lado, os acordos de paz para deixarem de comer mandioca e passarem a comer lagosta, e, do outro lado, o vencedor, na circunstância o MPLA, que se aproveitou da situação de paz para também beneficiar a sua enorme clientela sobretudo através de bens materiais.

Para o jornalista, o crescimento económico de Angola não chegou a seus cidadãos porque os investimentos foram mal distribuídos, ficando concentrados na capital (foto)

DW África: A seguir à paz, Angola viveu um dos maiores crescimentos económicos entre todos os países do mundo, atingindo um crescimento de mais de 20%, em 2005 e em 2007. Apesar disso, muitos angolanos continuam a viver na pobreza. Como se explica esta falta do “dividendo da paz” para muitos?

OC: O crescimento económico de Angola não foi direcionado para uma das teses do Agostinho Neto, que dizia que o principal era resolver os problemas do povo. Isso foi esquecido e o crescimento económico serviu apenas para tornar Luanda uma capital vistosa, para tornar os que já eram ricos ainda mais ricos e os que já eram pobres ainda mais pobres.

As forças políticas, o governo, o regime de Angola não soube de facto canalizar todo esse potencial económico, todo o seu crescimento, para diversificar o crescimento dos diferentes pontos e regiões de Angola – concentrando tudo, ou quase tudo, em Luanda e quase fazendo de Luanda uma ilha à parte do resto do país. Daí o facto de cerca de 70% da população angolana continuar a viver na pobreza.

DW África: Os recursos naturais que abundam em Angola, como o petróleo e os diamantes, são uma bênção ou uma maldição para o país?

OC: Na perspectiva de pessoas de boa fé, seria uma bênção. Porque um país rico, em dez anos de paz, poderia de facto ter feito muitas coisas boas. O problema todo é que é uma maldição, por causa da ambição dos homens, a ambição dos que estão no poder – e sobretudo porque estão no poder há muitos e muitos anos.

Nós não nos podemos esquecer que, por exemplo, o presidente José Eduardo dos Santos, está no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito. Todos sabemos que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe ainda muito mais.

O petróleo, os diamantes e outras riquezas que deveriam servir em primeiro lugar para beneficiar o povo – lhes dar escola, casa, emprego, postos de saúde – não serviu para nada disso. Serviu apenas para solidificar o espírito megalómano, de um clã que está no poder e que lá se quer perpetuar.

Em Angola, recursos naturais são maldição, considera Orlando Castro, “por causa da ambição dos homens”

DW África: Se compara o estado da liberdade antes do fim da guerra e a realidade nos dias atuais, qual é o seu balanço?

OC: Durante a guerra existiria uma liberdade muito condicionada, porque os que eram afetos ao MPLA teriam alguma liberdade no círculo do MPLA e os que eram afetos da UNITA teriam essa liberdade se estivessem do lado da UNITA. Acabado esse conflito surgiu um outro conflito, que é o de interesses.

Portanto, a liberdade em sentido lato como a liberdade de imprensa, foi restringida porque o regime angolano prefere ser assassinado pelo elogio do que salvo pela crítica. Se os angolanos quiserem dizer o que pensam, e se o que pensam não coincidir com as regras do regime, estão visivelmente condenados.

Isso é de facto de se lamentar, porque Angola estaria muito mais evoluída e ao serviço da sua comunidade se entendesse que a liberdade de expressão e de manifestação é um direito democrático que cabe a qualquer povo.

Guerra civil angolana terminou há 10 anos, mas foi substituída pelo conflito de interesses.

DW África: Para os próximos dez anos de Angola, qual seria o seu desejo?

OC: Temo que a eventual saída de cena do presidente (José) Eduardo dos Santos, se não for por uma via democrática, possa complicar e reacender conflitos antigos. Num país que viveu a guerra colonial, depois viveu a guerra civil e tem dez anos de paz, mais dez anos de paz não serão ainda suficientes para solidificar todo esse espírito pacífico que se espera que se tenha.

Assim, saibam os políticos compreender que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro. Se todos entendermos isso, provavelmente, Angola conseguirá ser um conjunto de pessoas, um povo, uma nação, coisa que hoje manifestamente não é.

Troca de presidente, se não for por via democrática, poderia “complicar e reacender conflitos antigos”, afirma o analista.

Autor: João Carlos (Lisboa)
Edição: Cris Vieira / Renate Krieger