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CIDADÃOS PEDEM REALOJAMENTO CONDIGNO APÓS EXPOLIO DAS SUAS CASAS

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Cerca de 700 famílias instaladas à força nas tendas do bairro Areia Branca, depois de terem sido espoliadas das suas antigas terras e casas, na zona da Ilha de Luanda, onde a elite do regime, com os filhos presidenciais a cabeça vão instalar multimilionários condomínios, exigem um pouco de sensibilidade humana, ao Governo da Província de Luanda, liderado por um membro do bureau político do MPLA, Bento Bento, para os realojar em residências condignas, para seres humanos viverem

TEXTO DE ANTUNES ZONGO – Folha 8

Os autóctones residentes no bairro Areia Branca Povoado solicitam o “bom” senso do Executivo de Bento Bento para o prometido realojamento em casas condignas, em qualquer local da província, como forma de não continuarem a viver com o drama da sua “expulsão” compulsiva da Ilha de Luanda. “Fomos corridos como se fossemos bois, transportados em camiões de areia, pior que no tempo do colono. Aliás o MPLA está a dar continuidade e da pior forma o que o colonialista português nos fazia”, acusa o ancião mateus Vambi, no pedestal dos seus 75 anos de idade.

FUENTE: fullremix.netEstes autóctones despidos de capacidade financeira para adquirir casas ou outros terrenos, estão atados e, ao que parece, condenados a viver pior que os cães dos governantes, em tendas rotas e que são uma porta aberta para a entrada das águas das chuvas que se avizinham.

“Ademais aqui onde nos desterraram não existem escolas, hospitais, luz eléctrica e água potável, mas vimos a ser esbanjado milhões de dólares para a festa do presidente da República. Acredito que só o dinheiro do bolo do presidente serviria para resolver o problema de luz aqui no bairro”, asseverou Vambi.

O local é ladeado por duas valas de drenagem, inundadas de lixo e mosquitos face a actual realidade, o que faz os moradores lembrarem-se com lágrimas no canto dos olhos das suas anteriores habitações com as minímas condições.

“Para nossa desgraça, quando pensávamos star tudo bem, eis que por volta das 00h:20 min, do dia 01.06.13, o bairro foi assaltado por uma equipa incalculável de Fiscais, Polícias de Intervenção Rápida, Brigada Canina e o Exército, todos ostensivamente armados, para nos expularem, sem aviso prévio, nem diálogo do local”, lembrou António Barroso, antigo morador da Ilha de Luanda.

Na sua opinião, a UGP e os Serviços de Defesa e Segurança do Estado cercaram todo o perímetro da circunscrição e ao amanhecer, orientaram as outras tropas, para fazerem o trabalho sujo de retirada compulsiva dos moradores, muitos sem a possibilidade de retirarem os pertences pessoais e os móveis de casa, vendo desta forma o derrube de toda uma vida digna de trabalho e luta.

“Os vizinhos que tinham familiares e amigos para os albergar, saíram do local, mas nós ficamos por não termos a quem recorrer”, lembrou António Barroso.

É por demais cediço a forma bruta de actuar dos operativos dos órgãos de Defesa e Segurança quando mandatados por “ordens superiores” a actuar contra autóctones pobres, no caso, alguns barbaramente espancados, enquanto “outros vizinhos acabaram por morrer nas mãos dos referidos operativos da Polícia e do Exército”, contou, acrescentando “já sofremos tanto, pedimos ao GPL que quando nos retirar daqui, que respeite e ponha em prática o espirito e a letra do artigo 23º da Constituição da República de Angola, que garante sermos todos iguais perante a Constituição e a Lei”, aflorou outro morador.

“PRAVDA NEGA PUBLICAR DIREITO DE RESPOSTA”
“O Jornal de Angola negou-se a publicar o nosso direito de resposta, numa altura que fomos atacados injustamente”, denunciou um dos moradores da Areia Branca Povoado, acusando este órgão de ser cúmplice de injúria e difamação, perpretada pela Administradora adjunta para a área técnica do Distrito urbano da Samba, Madalena Manuel, na entrevista do 30.08.14, onde esta afirma estarem as famílias, no local à revelia depois de expulsas do sector A, também conhecido por bairro Areia Branca, onde construíram moradias sem a autorização das autoridades.

“Eles, por serem teimosos e oportunistas, alojaram-se ali sem as mínimas condições de habitabilidade possível, depois de terem sido expulsos de uma outra área da Kinanga”, acentuou Madalena Manuel, acrescentando que estão no local inclusive famílias que vivem noutros bairros.

Quando se aperceberam que a população da Areia Branca ia ser desalojada, tão rápido apareceram e construíram também os seus casebres no intuito de ganharem casas distribuídas pelo Governo. Temos provas disso”, declarou Madalena Manuel, em entrevista ao Jornal de Angola.
Por sua vez, os acusados classificam de infundadas as alegações da governante e avançam: “ela nunca foi ao nosso bairro, logo está desinformada”, disse contrariando a versão da governante de viverem na zona 4000 famílias.

“Isso também é mentira, somos somente 700 famílias, dados apurados pelos fiscais do GPL e pela comissão de moradores da Samba pequena”, asseverou Barroso.

“A mesma disse ainda na entrevista, que a maioria das mortes ocorridas na zona é consequência do excessivo consumo de álcool e que temos uma escola de quatro salas de aulas com quadro de papelão, no qual, os professores escrevem com carvão. Isso é pura mentira, a escola que ela se refere funciona no interior da comissão de moradores, os quadros que temos é de contraplacado de cor preta, e usamos o mesmo tipo de giz usados nos institutos médios do país, todos os meios escolares usados pelos professores e alunos, foi-nos doado pela Associação de algumas igrejas cristãs, onde se perfilam a IURD, Bom Deus e Assembleia de Deus Pentecostal”.

Um outro membro da comissão de moradores disse; “quanto as mortes, ela não é médica-legista, e nunca se fez uma autópsia que apontasse o álcool como causa das mortes no bairro”, estando sim provado que por incúria do governo, as valas de drenagens, as valas e buracos de água, associados ao lixo geram mosquitos e outros insectos, estes provocam pneumonia, diarreia, malária, paludismo e febre tifoide, e “são estas as doenças frequentemente diagnosticadas,pelo Centro médico da Kinanga ou hospital Josina Machel”, recordou.

Portanto, com objectivo de repor a verdade dos factos mediante o contraditório, os moradores da Areia Branca Povoado acorreram ao Jornal de Angola, onde a administradora directamente os acusou, “mas nos disseram que a jornalista que fez a entrevista não se encontrava na redacção e, nem que deixássemos o direito de resposta, não seria publicado”, contaram.

Os vizinhos que tinham familiares e amigos para os albergar, saíram do local, mas nós ficamos por não termos a quem recorrer

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“Novos Ricos são como a cerveja tirada à pressão: num instante, mas a maior parte é só espuma” – Mia Couto

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Lisboa – Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem geradinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.

Fonte: Mia Couto

“Novos Ricos angolanos”: São nacionais só na aparência porque estão prontos a serem moleques de estrangeiros

Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

mia couto

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas.

O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.

Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes.

Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados às pressas, não se sentem bem na sua própria pele. Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos.

Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores. Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado “a luta pelo progresso”? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.

São nacionais mas só na aparência. Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros.

Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode irás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem crianças que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal. Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem.

Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida.

Uma parte da nossa elite está pronta para realizar esse suicídio histórico.

Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento.

Kony 2012: pastelão ocidental

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Por Marcio Pessoa (*)

A campanha instalada em nível global pela captura do warlord ugandês Joseph Kony cai como uma luva para política externa norte-americana na África. É legítima, a iniciativa da organização “Invisible Children” (Crianças Invisíveis) em mobilizar a opinião pública do seu país e usar os canais institucionais que a sociedade norte-americana tem para exigir e pressionar por medidas em nível de Estado contra uma causa que defende.

Pode-se até discutir se é legítimo o fato de a organização pressionar por uma intervenção militar fora de seu país, mas a ONG está no seu direito ao exigir uma medida de governo. O fato é que a campanha interna deu resultado e o Congresso Norte-americano aprovou a caçada a Kony em novembro de 2011. Discuto, entretanto, se os parlamentares realmente estavam pensando nas crianças-soldados quando aprovaram a “benfeitoria”. Afinal, se é para fazer uma ação efetiva contra as crianças-soldados, que seja uma ação global. Por que somente contra Kony?

Porque todos sabem que os Estados Unidos pretendem há algum tempo aumentar sua presença militar na África Central e estavam sofrendo a oposição de alguns “líderes” africanos, principalmente do coronel Kadafi. Torna-se evidente que a morte do ditador líbio, de influência inquestionável junto a outros governos do continente, e o apoio internacional à campanha facilitam as coisas.

O incremento do AFRICOM, Comando Militar dos EUA na África, em um cenário de comoção nacional e internacional e com eventuais opositores amaciados, ganha, portanto, sinal verde. Uma quase legitimidade necessária em tempos de fracasso no Afeganistão e crescente instabilidade no Iraque, quando Obama tem que calcular cada passo bélico por motivos eleitorais.

Visível e constrangedor

Bem visível foi o vídeo divulgado pela “Invisible Children”, cuja mensagem e formato seguem uma velha receita, aquela da canção “We Are the World”, que nos anos 1980 mobilizou Ocidente e países periféricos contra a fome na Etiópia. Agora, porém, o modelo é o audiovisual e a plataforma muito mais rápida, “pulverizante”, nas redes sociais.

Hoje se sabe que os recursos ocidentais que aliviariam a fome no país do Chifre da África foram desviados para equipar e manter a guerrilha que derrubaria a ditadura marxista de Mengistu Haile Mariam em 1991, após mais de 15 anos de guerra civil. Uma ditadura marxista substituída por governos mais alinhados com o Ocidente, mas extremamente repressores.

Não surpreende, mas assusta bastante o fato de cidadãos norte-americanos ainda pensarem que suas forças armadas podem servir como “super-heróis” em qualquer lugar do planeta. O vídeo expõe, sem qualquer cuidado, crianças vítimas de violência, como os outdoors das ONGs alemãs, que insistem em expor crianças negras em colos gordos de freiras e de belas moças loiras. Tudo isso para sensibilizar os doadores.

A imprensa britânica martelou bastante em cima da campanha pela cabeça de Kony sem maiores conteúdos críticos, apoiando a causa. Brasileiros postaram no Facebook apoio e desconfiança sobre o tema.

Enfim, a “Invisible Children” conseguiu o que queria. Fez o procurado número um da Corte Penal Internacional aparecer para todos os continentes, embora a opinião pública africana e o promotor argentino Jose Luis Moreno Ocampo saberem que Kony está em solo africano, provavelmente não no Uganda, mas na República Democrática do Congo, onde tem barbarizado com seus alegados mil homens.

O evidente

Mais interessante é a manifestação da jovem ugandesa Rosebell Kagumiri, cobrando que os organizadores da campanha esclareçam sobre a situação atual do país, segundo ela mais pacífica e sem atividade do Exército de Resistência do Senhor (LRA), uma guerrilha que mistura extremismo cristão e misticismo. “Este é outro vídeo onde eu vejo um estrangeiro tentando bancar o herói, resgatando crianças africanas. Nós já vimos isto na Etiópia. Celebridades vindo para a Somália”, diz Kagumiri.

O AFRICOM é o maior empreendimento militar norte-americano no continente. Foi instalado no Uganda por ser uma país estratégico tanto no acesso a riquezas da região central e do Chifre da África, como para conter os avanços de milícias radicais. Ou seja, faz parte de um projeto de estabilização em favor dos interesses econômicos e de segurança dos “Estados Unidos pós-Afeganistão”.

Uganda é o coração do continente africano, o novo posto de polícia da região. O emprego de qualquer ação militar no Quênia e na Somália contra piratas e Al Shabaab e as investidas já anunciadas contra os grupos armados AQMI, no Magreb Islâmico, e Boko Haram, em atividade na Nigéria, está agora bastante facilitado.

O LRA já estava com seus dias contados. Há alguns meses o exército norte-americano treina militares congoleses para ações contra o grupo armado de Kony. A única dúvida nesta história é a seguinte: já que a criação da Corte Penal Internacional basea-se em uma resolução da ONU porque os chamados “capacetes azuis” não trabalham na captura de Kony e de outros da lista de Ocampo? Por que deixar o AFRICOM tomar conta da situação? Perguntas óbvias que precisam ser feitas também em nível global.

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(*)Marco Pessoa natural do Brasil, é Master em Sociedade Civil e Gobernança Democrática pela Universidade de Osnabrueck, Alemanha. Divide seu tempo entre Bonn e Londres. Jornalista da Deutsche Welle, cursa seu PhD na Faculdade de Ciências Sociais da London Metropolitan University. Seu foco de pesquisa é Desenvolvimento, Democratização e Sociedade Civil na África Austral

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A Primavera para Elas

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Por Carla Habif*

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Desde dezembro de 2010 o mundo está de olho na onda de revoluções denominada Primavera Árabe, ocorrida em países onde o objetivo da população civil é conseguir mais democracia. Primavera é a estação das flores. Flores, por sua vez, lembram mulheres. Não porque são delicadas, ou porque muitas de nós a consideramos como um agrado carinhoso. Mas porque existem milhares de espécies, com as mais diferentes cores e incontáveis cheiros. Assim como nós, mulheres, o infinito enigma masculino. E ainda que todo dia seja dia e todo mês seja propício para fazer uma homenagem ao sexo forte – sim, estou me referindo às mulheres – nada como o mês de março para dar uma atenção especial, já que nele temos um dia internacional! Falemos aqui, apontando exemplos de ação e coragem, da participação das mulheres nos protestos e revoltas da Primavera Árabe.

Para começar, sim, elas estão envolvidas, desde o começo. Pode não ser surpresa para aqueles que estão familiarizados com o feminismo dos países árabes, já que as mulheres representam um dos grupos que mais defende a sociedade civil na região do Oriente Médio. Mas, ainda assim, é novidade para muita gente.

Em muitos destes países as mulheres são submetidas às denominadas “leis tutelares”, que as qualificam com um status social minoritário e, na maioria das vezes, limita seus direitos. Desta forma, elas sabem bem o perigo de uma suposta democracia a ser estendida apenas para parte da população. Além disso, as protagonistas deste texto têm seus motivos para desconfiar de revoluções levadas a cabo pelos homens da sociedade. Diversas vezes na História, elas assistiram uma revolta social não ter o resultado esperado para a ala feminina dos rebelados. Um exemplo disso foi a Guerra da Argélia, na qual mulheres foram às ruas e lutaram lado a lado com os homens. Porém, vencido o colonialismo francês, as leis impostas as mantinham dentro de casa a serviço exclusivo do marido.

Devido a casos deste tipo, as mulheres dos países árabes – cientes do passado de suas sociedades – querem ter certeza de que o caminho da democracia não irá ser desviado se seu próprio destino.

Como sabemos, cada país que passa ou passou pelos movimentos da Primavera Árabe possui diversas particularidades, como a participação de grupos e organizações em cada um deles. Vejamos casos ocorridos na Tunísia e no Egito.

Na Tunísia, berço das revoltas, alguns estereótipos podem ser retirados de cena. Após a independência da França em 1956, o novo governo aboliu a poligamia e estabeleceu a igualdade das partes no casamento, divórcio e custódia dos filhos. Alguns anos depois, estabeleceu-se idade mínima para o casamento (18 anos) e o país adotou penalidades relativas à violência doméstica. Com boa parte da sociedade secular, as mulheres têm acesso a métodos anticoncepcionais desde 1962. Direito ao aborto – o que não se tem no Brasil, diga-se de passagem – desde 1965. Ainda assim, filhas só podiam herdar metade do que os filhos e o marido tinha direitos sobre propriedades adquiridas por sua esposa durante o casamento.

Desta forma, as tunisianas estavam prontas para participar – e inclusive tomar a frente – das revoltas democráticas. Lina Ben Mhenni, blogueira ativa, foi provavelmente uma das primeiras a alertar o mundo sobre os protestos tunisianos em dezembro de 2010. Ela continuou, e continua até hoje, apesar de ameaças e censuras que sofre.

Nas ruas, era possível ver mulheres em massa lutando pelos direitos da sociedade. Algumas usando jeans, outras véu e inclusive minissaia. Adolescentes, avós, mães. Casadas, divorciadas e solteiras. Elas estavam lá, na luta pela derrocada de um déspota, e foram exemplo para uma vasta região.

Porém, realizar uma revolução é apenas um passo. Construir uma nova sociedade é outro. A feminista Raja bin Salama, crítica ativa da subjugação feminina pelo fundamentalismo islâmico, pediu publicamente para que as novas leis da Tunísia se embasassem na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Ainda sob pressão, elas continuam em sua luta. Khadija Cherif, ex-cabeça da Associação Tunisiana das Mulheres Democráticas, garante que a luta pela separação entre Estado e religião irá continuar. Em suas palavras, “a força do movimento feminista tunisiano está no fato de que nós nunca o separamos da luta pela democracia e pela secularização social”.

No Egito, a sociedade seguiu o exemplo da Tunísia em busca de um governo democrático e pode-se dizer que as mulheres contribuíram muito para isso. Apesar de décadas de censura, o movimento feminista egípcio de longa data sobreviveu este tempo todo. Também no passado elas foram ativas, tendo cumprido um importante papel na revolução contra os britânicos em 1919. Porém, após a independência, foram ignoradas pelo partido Wafd, que tomou o poder. O movimento feminista irrompeu em 1923, quando Huda Sha’rawi arrancou seu próprio véu em público. Desde então, permaneceu tão ativo quanto conseguiu, sob uma autocracia nas últimas décadas, abraçando diversas ONGs e ativistas.

A participação da mulher egípcia foi passível de comprovação através de sua presença em massa durante as revoltas na Praça Tahir. De acordo com Amal Abdel Hady, da Fundação Nova Mulher, o número inferior de mulheres comparado ao dos homens se justifica tanto por passados episódios de abuso sexual, quanto pela simples falta de atenção da mídia ao papel exercido por elas neste episódio.

De qualquer forma, foi uma mulher de 26 anos uma das primeiras a receber destaque e os créditos pela ação da sociedade egípcia em Tahir. No dia 18 de Janeiro de 2011, Asmaa Mahfouz publicou um vídeo no Youtube e no Facebook no qual declarava que as mulheres deveriam ir e iriam aos protestos do dia 25, com tanta ou mais virilidade – por assim dizer – do que muitos homens. O vídeo não demorou a se espalhar de forma viral e a planejada breve manifestação tornou-se, em si, uma revolução.

Outros dois exemplos a serem citados são Amal Sharaf e Nadine Wahab. A primeira, professora de inglês, com 36 anos e mãe solteira e membro do Movimento Juvenil 6 de Abril, passou dias e noites no pequeno escritório da organização supervisionando uma equipe de homens trabalhando pela revolução. A segunda, egípcia de nacionalidade americana e especialista em novas mídias, tornou-se responsável por um importante cargo de na Google, aumentando a divulgação online. Cabe citar também as Mulheres do Egito, um grupo do Facebook, que publicou uma galeria de fotos demonstrando o papel feminino nos protestos.

Ainda assim, desde a renúncia de Hosni Mubarak, a voz da mulher tem sido deixada de lado no diálogo político. De forma deplorável, o comitê responsável pela reformulação da constituição excluiu não só a participação de mulheres, mas de especialistas em direitos femininos. Em resposta, o Centro Egípcio para o Direito das Mulheres publicou uma declaração denunciando a exclusão. O documento foi assinado por 102 organizações femininas do Egito.

Enquanto isso, mulheres foram e continuam ativas por toda a região onde a Primavera Árabe tem se estendido. Iêmen, Líbia, Síria, Bahrein… Não há lugar no qual não se encontre o papel feminino nas mudanças ocorridas e naquelas ainda por acontecer.

Estas mulheres, como muitas ao longo da História, merecem mais do que uma homenagem por agir em locais hostis a sua participação social ou mesmo sequer por fazer valer os seus direitos. Merecem o reconhecimento mundial – e local – de seu papel como mulheres em suas respectivas sociedades e como cidadãs.

“We see women, Islamist or not Islamist, veiled or not veiled, coming together and leading what’s happening on the ground… We’ll never go back to square one.” – Magda Adly, membro do Centro El Nadim de Reabilitação para Vítimas de Violência.

Carla Habif, natural do Rio de Janeiro, Brasil. Historiadora, graduada pela Universidade Federal Fluminense, é especialista em Relações Internacionais, com foco na área de política internacional no Oriente Médio.