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A CONTRA-ROTA BRASILEIRA DA ESCRAVATURA – RETORNADOS CONGOS-ANGOLA TORNARAM-SE AGUDAS

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Por Simão SOUINDOULA

E, em filigrane, o que transparece da leitura da obra “Negros, Estrangeiros. Os escravos libertos e a sua volta a Africa”, da autoria de Manuela Carneiro Da Cunha, livro que acaba de ser reestampado, em São Paulo, na sua segunda remessa, revista e ampliada, na Editora Schwarz e inserida na sua coleção Companhia das Letras.

Estalando-se em 279 páginas, particularmente, densas, o volume e estruturado numa dezena de articulações nas quais são abordados a evolução das modalidades de alforria dos africanos escravizados no Brasil; o seu estatuto social, jurídico e político, francamente, hibrido, e a conturbada história do seu retorno para a “Costa dos Escravos”, singularmente, na cidade de Lagos.

Analisa, ai, a origem étnica dos melano – brasileiros, regressados, as suas atividades laborais, opções politicas, preferências culturais e praticas religiosas.

Replica, para o essencial, da sua tese de doutoramento, a antiga Professora nas Universidades de São Paulo e Chicago, fornece, em anexo, um quadro cronológico da temática tratada e um conjunto de referências bibliográficas, nas quais nota-se estudos de Stuart B. Schwartz, “The mocambo: Slave resistance in colonial Bahia” (1970) e “Bresil, le royaume noir des mocambos” (1982).

A autora inclui no seu trabalho um generoso desdobramento iconográfico no qual reencontramos, entre outras estampas, as, famosas, do alemão Johan Moritz Rugendas, retratos de cativos angola, benguela, cabinda, congo, monjolo e rebolla (libolo?).

Nota-se o prefácio, para esta segunda edição, redigido pelo historiador Alberto da Costa e Silva, que foi Embaixador do Brasil no Benim e na Nigéria e membro do Comité Cientifico Internacional do Projeto da UNESCO da “Rota”.

REGRESSO ERRADO

Envolvidos em circunstâncias, perfeitamente, incontroláveis, muitos “malungos” pararam, em vez, da Cote d’Angola, em Town of Lagos, como foi o caso, em 1900, da menina Romana da Conceição.

Foi, igualmente, o exemplo de António que era um cabinda; serviçal do convento do Carmo na Bahia, onde teria sido alforriado e ido para Ajuda, presumivelmente, em 1838, com seus cinquenta anos. Teria viajado para São Tome, Fernando Pó, Porto Novo e se estabelecido em Lagos, onde teria falecido por volta de 1878.

Manuela Carneiro afirma a propósito desse angolense, tornado, Padre, brasileiro de Lagos, que foi uma personagem edificante da Igreja nesta cidade, um autêntico precursor.

Ela baseou-se num artigo de J.B. Chausse, contida na revista “Les Missions Catholiques”, publicada em 1881, onde testemunha (1861), numa linguagem típica da época “António foi verdadeiramente o precursor dos missionários nestas paragens barbaras, ele próprio missionário incomparável, desempenhou um papel providencial”.

Essas anedotas são ilustrativas do regresso, visivelmente, errado de angolenses no Golfe de Benim ou de Biafra.

Coming-back desacertado mas provocado, visivelmente, pela singular frieza das relações diplomáticas entre a Inglaterra, firmemente, abolicionista, e o Brasil e Portugal, notoriamente, hesitantes.

Londres facilitou, logicamente, a instalação de descendentes de “acorrentados” embarcados na foz do Nzadi, na embocadura do Cuanza ou na pantanosa Benguela, não e para Angola, mas sim, para a Nigéria, um território sob o seu controlo, sobretudo a partir 1861.

Esta situação era previsível com vários acontecimentos a volta da espinhosa ”Questão Negra”, que eram, invariavelmente, pan – étnicas.

E assim que, houve, na revolta muçulmana de 1835, na Bahia, a participação de cabindas e congos.

E quase certo que uma grande parte dos” vutuka” eram cristãos, originários, do sul do Equador.

IRMANDADE DE ANGOLAS

Houve, no Golfe de Benim, entre outras continuidades, uma forte réplica da Igreja católica saída da Irmandade de Angolas, que era bem implantada na Bahia.

Esta replicação era imaginável se estivemos em conta o facto de várias ordens da Igreja possuir escravos.

O destino da remigração importa pouco, porque, segundo Pierre Verger, toda a Africa era considerada a pátria de um escravo, qualquer que fosse sua origem étnica.

Como não podia de ser assinalado, a investigadora brasileira, membro da Academia de Ciências, aponta a perpetuação na “Afro-Brazilian Colony” em Eko (apelação ioruba da antiga capital federal) do ritmo da samba e do prato mungunza.

Na dinâmica da sua irreversível integração na sociedade nigeriana e na perspetiva da sua participação, ativa, na luta pela emancipação política da sua nova nação, muitos “returned” mudaram, sobretudo a partir do início de seculo, seus nomes para adotar apelidos iorubas.

Foi o caso da respeitada família Assunção, oriundo da burguesia logosiana, que optara para o cognome de Alakija. O clã deu dois irmãos, brilhantes advogados, cujas fotografias foram reproduzidas na capa e contracapa da obra, mas igualmente, o honrado Plácido Assunção, o futuro Sir Adeyemo Alakija.

Em conclusão, a leitura de “Negros, Estrangeiros. Os escravos libertos e a sua volta a Africa”, deve ser feita tendo em conta todas as conexões históricas, políticas, diplomáticas e religiosas, que remontam, inevitavelmente, ao Quadrilátero, um dos marcadores da genética histórica do Recôncavo baiano.

23 de Agosto, Dia Internacional da Comemoração do Trafico Negreiro e de sua Abolição – ¡Kalunga Eh! Los Congos de Villa Mella. Património Intangível da Humanidade”

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Este facto histórico e antropológico revalorizante sobressai claramente na leitura de “¡Kalunga Eh! Los Congos de Villa Mella”, última obra do investigador dominicano Carlos Hernandez Soto. Este livro acaba de ser publicada em Santo Domingo pela Editorial Gráfica.

Compilação de textos estendendo-se sobre 142 páginas, redigidos depois da proclamação pela UNESCO, da Confraria dos Congos de Villa Mella “ Obra Maior do Património Oral e Imaterial da Humanidade “ , esta colectânea é , visivelmente, a continuação de trabalhos anteriores que desembocaram na publicação, anos atrás, de “ Morir en Villa Mella : ritos funerários afro dominicanos “.

Nesta análise de antropologia escatológica, o autor que dirige actualmente o Museu do Homem Dominicano, realça o papel essencial desta estrutura associativa tradicional nas cerimónias funerárias em Villa Mella, região adjacente a capital da parte oriental da antiga Española.

E, Kalunga é a sua principal peça musical e coreográfica assim que o seu grito identificador.

O estudo desta pratica ritual, sobrevivência genericamente kongo, mas na realidade bantu, que integrou , numa dinâmica inevitavelmente sincrética, diversos elementos da religião católica e crenças ioruba e ewe-fon, é feito em seis capítulos.

Hernandez Soto aborde ai, entre outros aspectos, a natureza social e a função espiritual deste reagrupamento fraternal assim que os contornos da sua expressão musical ( cantos e suportes orfanológicos ) e o registro da sua coreografia.

E, num processo comparativo, pouco sistematizado nas Américas e nas Caraíbas, o autor, que é também Professor na Universidade Autónoma de Santo Domingo, atesta a existência do mesmo tipo de confrarias no território gémeo de Haiti e em Cuba, assim que no continente, no Brasil, Panamá e nos Estados Unidos de América, mais precisamente em Nova Orleans.

UNIVERSO ESCATOLOGICO

Como provas linguísticas e antropológicas, nomeadamente congo-angola, o Director do MHD apresenta, oportunamente, no fim da sua obra, um recapitulativo de termos em uso nesta estrutura de solidariedade social.

Reencontra-se, no conjunto das diversas manifestações organizadas, neste quadro, as celebrações de maní, prováveis reminiscências das cerimónias relativas à entronização dos Mani Kongo.

E, a animação de todos os ritos da Confraria é apoiada por, principalmente, instrumentos chamados, genericamente também, congos, congas ou palos. O congo é o tambor maior e o conguito designa o batuque menor.

Quanto aos membros da associação, que devem imperativamente ser músicos ou dançarinos, são naturalmente designados congueros.

Uma das canções rituais (toques), introdutórias, é chamada bembé yagua, provavelmente uma sobrevivência do kikongo bembo nengwa (canção para embalar). E, durante a cerimonia do kumba (separação), entoa-se, entre outros lamentos, o pembé chamaliné (partida pacifica).

Os outros cantos retomados, verdadeiros requiems aeternam, são o bembo koko (reconforto solidário), mamá yungué ou ñungué (berceuse), oh yacabelo (ternura), oh kikondé, (lamento), yacuacila (desamparo), ensilla mi caballo (impotência perante a morte), gayumba eh (salvação) , alé bambó (coragem), ya lo ve (coragem) antonio bangala (fim) e lambé lo deo (comida celeste).

E esta notável continuidade linguística e antropológica, que militou afim que a exigente UNESCO pudesse declarar o conjunto das práticas rituais kongo que se perpetuaram, num sincretismo vivificador, no leste da histórica Española, riqueza cultural universal.

E, o “munsi kalunga“ dominicano considera, a justo titulo, que esta declaração deste organismo da ONU deve, na realidade, alargada a todas as Américas e Caraíbas negras, com, entres outras componentes, a Sociedade Congo, na ilha das Gonaives, no vizinho Haiti; o Congo Reales em Trinidad, em Cuba ; o famoso e indestrutível Congo Square, a qual acrescentou-se, hoje, o nome do celebre jazzman Louis Armstrong ; as representações teatrais congos na sintomática localidade de Cuango, em Panamá e as inevitáveis congadas de Atibaia, no Brasil.

Uma das principais contribuições científicas do antropólogo de Santo Domingo é de ter efectivamente posto em relevo a predominância tomada no universo escatológica bantu, depois da terrível e traumatizante travessia do oceano, pelas crenças hidrogonicas. Com efeito, o ntoto ( terra firme ) e o nzulu ( céu ) , Reino de Deus, elementos fundamentais das culturas de origem, reencontraram-se no alem -Atlântico, relegados no segundo plano, a favor do insondável kalunga ( mar ).

Os africanos encadeados nas insalubres porões dos navios negreiros, ressentiram na seu corpo e na sua alma, a força e a imensidade di nlangu ya mungwa ( agua salgada ).

Com este livrinho de Carlos Hernandez Soto, a Rota do Escravo foi, na verdade, a Viagem sobre o kalunga e a transferência, numa dinâmica verdadeiramente psicoanaleptica, dos seus tenazes mistérios.

HISTÓRIA DE ANGOLA: A RAINHA NZINGA, RUMO A PATRIMONIO DA HUMANIDADE

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Por Johnny Kapela

(International Networking Bantulink)

E, a dinâmica que anuncia a publicação, há dias, em Lisboa, das atas do Coloquio Internacional sobre a Dizonda, realizado em Roma, em Marco de 2010, sinergia completada, coincidentemente, pela recente implementação pela UNESCO do seu programa Women Figures in African History: an E-learning Tool, projeto que beneficia da colaboração do perito desta organização onusiana, o memorialista angolano, Simão Souindoula.

Reagrupadas em 223 páginas e patenteada pelas edições Colibri, sob o título: “ A Rainha Nzinga Mbandi. Historia, Memoria e Mito”, a compilação reúne a quinzena de comunicações apresentadas na Cidade Eterna.

Nota-se, ai, a nota de abertura, a introdução, o depoimento e o posfácio de, respectivamente, Cornelio Caley, Inocência Mata, Ana Maria de Mascarenhas e Manuel Pedro Pacavira.

Aponta-se, no bloco das contribuições de fundo, alem das personalidades já citadas, as de Abreu Paxe, Professor de literatura africana no Instituto Superior de Ciências de Educação de Luanda, Américo Kwononoka, Diretor do Museu Nacional de Antropologia e do sociólogo angolano Moisés Malumbo.

Lê-se, igualmente, as comunicações do erudito, medievista, Patrick Graille, em posto na Universidade Vassor-Wesleyan de Paris, a escritora antilhana Sylvia Serbin, de Pires Laranjeira, Professor de literatura contemporânea na Universidade de Coimbra e os italianos Mário Albano, jornalista, e Mariagrazia Russo, da Universidade “La Tuscia”.

O Brasil pagou a seu tributo a Soberana de Matamba, com aportes de Selma Pantoja, da Universidade da capital federal e Solange Barbosa, Diretora do Projeto paulista “A Rota das Liberdades”.

De salientar, como ganho da reunião cientifica organizada em parceria com a Universidade de La Sapienza e a de La Tuscia, de Viterbo, no quadro da indispensável alinho heurístico, o facto de vários autores, curiosamente, europeus, apertar a “Bíblia” da historia do Quadrilátero no seculo XVII, a famosa “Descrizione de”tre Regni Congo, Matamba et Angola…” do Padre italiano Giovani António Cavazzi da Montecuccolo.

Com efeito, emitam, varias reservas, como a própria Propaganda Fide, no seu tempo, e a escola histórica africanista, sobre a Relação do confessor e testamentário da “Muene” de Santa Maria da Matamba.

Os apresentadores sublinharam, entre outros, principais eixos, numa procura, laboriosa, de novas abordagens sobre a “Rayna Singa”, a escolha desta sedutora figura como principal sujeito literário e artístico, em vários domínios, tais como os das tiradas poéticas, das aplicações narrativas passando pelas exibições teatrais, assim como, na criatividade gravurista.

WARRIOR QUEEN

Outras novas linhas heurísticas, são, as, sobre a recorrente questão da tomada do poder da “Donna de Angola”, que se explica, naturalmente, pela violenta ocupação da” Xi a Ngola” pelas tropas portuguesas, com o seu subsequente enfraquecimento politico; a inutilidade da escolha de uma grafia “correta” do nome da “Regina”, personagem de projeção internacional, cuja fixação tem uma dezena de variantes, e a certificação deste apelido no proto-bantu, com todos os seus efeitos no continuum antroponímico e na reapropriação patriótica, contemporâneos.

Este reassumere, que e notado, igualmente, no Brasil, e uma novidade contida nas atas do coloquio.

Com efeito, observa-se neste imenso território da América do Sul, uma forte sensibilidade de inculturação, linguística e antropológica, a volta da “Inkice” Feminina.

Uma das provas desta evolução e a inserção, no Carnaval de Rio, em 2010, da cancão “Suprema Jinga – Senhora do Trono Brazngola”, pelo grupo Samba – Enredo da Escola Imperio da Tijuca.

E, entre outros factos, e esta perpetuação alem – Atlântico da gesta da Ngola, que deu oportunidade a Simão Souindoula, inspirador do encontro da cidade do Coliseu, na sua comunicação, bem prospetiva, sobre a figura da Kiluanje, de defender a Nzinga –Nzinga, como Património Intangível da Humanidade.

Aquele perito da UNESCO confirmou que a Warrior Queen, uma das Soberanas que marcou, indelevelmente, a evolução de África mercantilizada, tornando-se uma personagem de referência nas letras e artes assim que nas ciências humanas e sociais da Europa ocidental, logo no século XVIII; uma tradição mítica nas comunidades afro-americanas e afro-caribenhas e centro de interesse no quadro de centenas de projetos africanistas, no mundo inteiro, e símbolo de orgulho para milhões de africanos, constitui, incontestavelmente, uma instrutiva herança para o mundo.

Prevista para 2015, em Lisboa, cidade que se inclinou perante a inteligência politica, militar e diplomática da Jaga, e que, segundo Cavazzi, dominava “in idioma Portoghese (nel quale era versatissima), a próxima Conferencia Internacional sobre a Ngana será, sem dúvida, a da consagração do seu legado, como uma das bases morais, ao nível mundial, do respeito da soberania das nações.

PALESTRAS UNESCO/TRIANGULO KANAWA DESCENTRALIZADAS – DECENIO 2012/2022 DOS AFRODESCENDENTES

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Por Simão SOUINDOULA


O ciclo de conferências que estava a ser cumprido pelo historiador Simão Souindoula, do Comité Cientifico Internacional do Projeto onusiano da “Rota do Escravo”, na sede da União dos Escritores Angolanos, será descentralizado ao nível da cidade de Luanda.

Esta opção decorre de pedido de vários grupos de estudantes e do público que conseguiam assistir a essas preleções.

O início desta nova etapa de encontros e marcado para o dia 27 de Julho próximo, a partir das 16 horas, no Complexo Turístico Calor Tropical, sito na autoestrada da Samba.

O perito da UNESCO abordara o inédito tema:   “ A Rota ibérica da Escravatura. Portugueses leuco-dermes atestam genes bantu.”

Realçara o facto, de Portugal, nação, singularmente, expansionista, instalou, já, nos meados do século XV, contingentes de cativos negros vindos, a partir de 1441, das costas de Africa ocidental.

Esta mão-de-obra, tornada indispensável, aumentara, substancialmente, ate atingir nos meados do seculo XVI, 10% da população de Lisboa.

E, em 1700, estima-se a população escrava na aglomeração da embocadura do Tage a 30 000 indivíduos.

 Esta evolução terá efeitos antropobiológicos na população portuguesa.

Com efeito, o exame da cartografia do gene HBB  S, responsável de uma doença hematológica virtualmente ausente das populações da Europa setentrional e central, permite constatar a sua predominância ao sul de Portugal, particularmente nos vales do Sado e Sorraia.

A classificação desta componente do cromossoma, constituído de um elemento de ADN, coincida, curiosamente, com o tríptico esclavagista de Africa ocidental com, nomeadamente, a distinção bantu; este ultimo registro fazendo referencia, para o essencial, ao atual território angolano: o vasto Reino do Congo e os seus territórios aliados assim que a antiga Colónia portuguesa de Angola.

 A sessão é aberta ao público; com um convite especial aos estudantes da Universidade Independente de Angola.

 

HISTÓRIA DE AFRICA – MANUAL PARA ESTUDANTES BRASILEIROS, INCLUI A EVOLUÇÃO DE ANGOLA

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Por Simão Souindoula (Angola)

O facto e assentado no livro da Leila Leite Hernandez, intitulado “A Africa na sala de aula. Visita a Historia Contemporânea”, que acaba de ser republicado, em São Paulo, na sua segunda remessa, nas edições Selo Negro.

A autora recorda, naturalmente, sobre o Quadrilátero, o seu desenvolvimento proto-histórico, esclavagista e colonial, e propõe, em ultimo tratamento do tema do seu trabalho, a sua visão do período pós-independência do pais.

Selada num consistente bloco que se estala em 674 páginas, esta publicação e repartida numa quinzena de capítulos, na qual a antiga Professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, analisa, entre outras circunstâncias, a repartição cartográfica do continente niger em Berlim, nos cruciais meados do seculo XIX, a gradual instalação do sistema colonial, com as suas variantes, as suicidárias tentativas de políticas de assimilação ou de indigenização e os inevitáveis movimentos de resistência politica, social e cultural.

A memorialista paulistana aborda toda esta evolução no contexto marcado pela dinâmica do perspicaz pan-africanismo, os efeitos irreversíveis das duas Grandes Guerras na formulação das revindicações autonomistas, os diferentes processos de obtenção das liberdades e a teia do tenebroso apartheid.

Fixa a síntese sobre Angola no contexto da obstinada consolidação do Ultracolonialismo português, que foi favorecida pelo contínuo enfraquecimento das formações politicas que formam, hoje, Angola.

Nota, para o efeito, a severa derrota de Ambuila, em outubro de 1665, que destabilizou, definitivamente, a Federação. A investigadora da Universidade de São Paulo comprova que tropas brasileiras contribuíram no desastre kongo.

Aponta, igualmente, o desregrado tráfico de escravos que, segundo ele, envolveu, só no ano de 1530, cerca de 4000 cativos de Pinda e Angola.

Os muleques resistiram a neoescravidão que sucedeu, nitidamente, na segunda metade do seculo XIX, ao terror esclavagista.

Serão, então, registados, centenas de revoltas como, por exemplo, no Bailundo, em 1902, contra o trabalho forcado, a oposição liderada por Tulante Buta contra a exportação de contratados para São Tome, de 1913 a 1917; e a revolta do Amboim, em 1917, quando os Seles e os Bailundos rebelaram-se contra a expropriação das suas terras e o trabalho obrigatório.

A especialista brasileira assinala outras rebeliões, as ocorridas no Huambo, Congo, Humbe, nos Ovambo e nos Dembos.

DOS JORNAIS AS ARMAS

Esta atitude geral de contraposição anticolonial teve a sua declinação, inteligente, nos meios urbanos com a criação de associações, ligas e grémios, assim como, o lançamento de vários periódicos.

E, este contexto que dará origem a dezenas estruturas politicas, independentistas, clandestinas, quase todas, logicamente, de esquerda.

Essas organizações provocarão a previsível Grande Revolta Autonomista, tríptico, ocorrida no setentrião angolano, no oportuno primeiro trimestre de 1961.

Esta servira de forte alicerce moral ao nacionalismo angolano no seu progresso político, diplomático e militar, assim como, nas suas tentativas de convergência, que desembocara na independência do pais e na sua inabalável luta contra os neo Códigos Negros, na Azania. Há uma dezena de anos, a alforria arrancada, heroicamente, foi consolidada.

A pedagoga sul-americana inclui, na sua obra, em anexos, vários documentos como mapas indicativos das resistências dos Hereros e Ovambos, no início do seculo XX.

Utilizou um conjunto de fontes bibliográficas, impressionante, dentre das quais podemos assinalar, “A campanha de cuamatos” de David Martins Lima, publicado em 1908, “Angola” por Kwame Nkrumah, no crucial ano de 1962, “Estórias de contratados” de Costa Andrade, “Dos jornais as armas: trajetórias da contestação angolana” do afro-baiano Marcelo Bittencourt.

A obra, “A Africa na sala de aula. Visita a Historia Contemporânea”, que da um previsível relevo a Angola, confirma a consistência histórica das múltiplas relações, seculares, mantidas entre os dois territórios, quase paralelos do Atlântico sul.

E, o animador episódio deste relacionamento, na história recente, foi o valente reconhecimento, primus inter …, da emancipação do Quadrilátero pelo Itamaraty.

Simão Souindoula é angolano. Historiador, atualmente faz parte do Comité Cientifico Internacional da UNESCO e do proyecto “Rota do Escravo”.

Palestra “25 de Maio – Dia de África”

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MISOSOAFRICA INFORMA:

O Triângulo Turístico e Histórico-Cultural Kanawa Mussulo e a União dos Escritores Angolanos,  Luanda,  realizam nesta Quarta-feira, 24 de Maio de 2012 a partir das 18h00, na sede desta instituição uma conferência subordinada ao tema:

“ ! Kalunga Eh ! Los Congos de Villa Mella. Património Intangível da Humanidade”

Por Simão Souindoula

(Comité Cientifico Internacional-Projeto da UNESCO “A Rota do Escravo”)

 Resumo:

 Bem articulados no trafico negreiro transatlântico, a Colonia de Angola o Reino do Kongo forneceram milhares de cativos na ilha de Espanola.

O neo – povoamento fara deste território caribenho “destainonizado”, uma verdadeira Angola, deslocada, com uma perspetival perpetuação civilizacional, bantu, consubstanciada em notáveis retenções linguísticas e num profundo continuum antropológico.

Um desses legados mantidos num quadro solidário, típico, vindo da contracosta, atestado, nos arredores de Santo Domingo, rural, na Republica Dominicana, e, naturalmente, no  território gémeo de Haiti e em Cuba, assim que no Brasil, Panamá e nos Estados Unidos de América, mais precisamente em Nova Orleã, e o ! Kalunga Eh!

Baseado em fortes expressões cantadas e coreográficas, com poderosos suportes organológicos, africanos, este relevante seguimento linguístico e antropológico, foi declarado pela UNESCO, em 2001, como uma das Peças, Maior, do Património Imaterial da Humanidade.

União dos Escritores Angolanos:  AV.HO-CHI-MIN, LARGO DAS ESCOLAS 1º DE MAIO CEP 2767 – TEL: 222322421-222323205 FAX: 222323205

http://www.ueangola.com                          

     E-MAILS: uniaoea@yahoo.com.br/uniaoea@hotmail.com

«O lungungu kongo e seu clone, o berimbau brasileiro, nas bagagens de Gilberto Gil»

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Palestra:

«O instrumento de música africana e sua importância no panorama mundial»

Brazzaville, 3 – 4 de agosto de 2012

Resumo:

Um dos períodos de intensas trocas de valores de civilização registado, nesses últimos seculos, na história da humanidade, foi, sem dúvida, o ligado ao tráfico transatlântico de centenas de milhares de escravos africanos.

Este movimento humano instalou no Novo Mundo, uma grande parte da organologia africana.

Um dos instrumentos vindo do litoral negro, o mais emblemático, no imenso Brasil, verdadeiro subcontinente, foi o arco musical.

Bem conservado nas expressões tradicionais afro-brasileiras, o berimbau foi integrado na música popular brasileira por diversos compositores tais como o prolifico artista de Salvador de Bahia, Gilberto Gil.

Guardara a sonoridade do mongongo bantu, durante a sua fabulosa carreira, no seu pais e na Grande Bretanha, durante o seu exilio, onde ele integrara os conjuntos Yes, Pink Floyd e Incredible String Band.

O antigo Ministro brasileiro da Cultura marcara do seu estilo herdado do hongolo, numa digressão que efetuou, nos anos 70, nos Estados Unidos de América e num álbum que realizou, ai.

Influenciara, com o seu jogo de guitarra, baseado sobre o embulumbumba, Jimmy Cliff, com quem ele trabalhou algum tempo.

A sua técnica elumba  dará, em 1980,  a originalidade da versão portuguesa de “No Woman, No Cry”, o sucesso de Bob Marley e The Wailers, que introduziu o reggae no Brasil, e que fiz, ai, um grande sucesso.

A grande internacionalização estruturante do Baiano  foi cumprida em 1986, no Japão, com os seus Solos de Berimbau Consolação, que foram retomados por vários guitarristas do pais do Sol-Levante.

Em 1993, Gilberto Gil inserou o seu género na versão da cancão de Jimi Hendrix “Wait Until Tomorrow”.

Sob a conduta de GG e a iniciativa de centenas de grupos de capoeira, o ochikwayakwaya, saído das florestas africanas, passando pelas savanas brasileiras,  joga o seu papel de coadjuvante de diversidade nas músicas populares do resto do continente americano, das Caraíbas, da Europa ocidental e da Asia.

Veja a Biografia do Professor Souindoula

“A ROTA DO ESCRAVO”: BALANÇO 2011

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COMITE CIENTIFICO INTERNACIONAL DO PROJECTO DA UNESCO

 ANGOLA, MAIS ARRIMADA AS AMERICAS E CARAIBAS

 

E a apreciação que se pode fazer na sequencia de dezenas de acções empreendidas, durante o ano que esta a findar, pelo historiador Simão Souindoula.

Com efeito, os últimos doze meses constituíram um período particular, por motivo da declaração pela Assembleia Geral das Nações Unidas, de 2011, Ano Internacional consagrado, prioritariamente, as Populações Afro-descendentes.

As actividades do perito angolano do Comité da “Rota” consubstanciaram-se, com o precioso apoio do Triangulo Turístico e Histórico-Cultural  Kanawa Mussulo, na participação em eventos internacionais, nas actividades de documentação, investigação, animação e comunicação cientificas.

O americanista angolano começou bem o ano, extraordinariamente, excitante, com uma palestra, que seguiu, imediatamente, a sua notável participação no Terceiro Festival das Artes Negras, que teve lugar em Dakar, no Senegal, durante a primeira quinzena do mês de Dezembro.

Com efeito, a conferência de entrada, foi pronunciada, na antiga, esclavagista, península de Mussulo, na Vila Kanawa, no quadro do instrutivo Reveillon 2010-2011, sobre o tema “ Da península de Mussulo a ilha de Espanola ou a história das travessias do Atlântico sem regresso”.

Os felizes convidados aprenderam, ai, o embarque de cativos cassanjes e tanto outros, da cidade, santa, cárcere, de São Paulo de Loanda para portos, tão inesperados, como os de San Lucar, Canárias e Cádis, no bloco ibérico; Maracaibo, Coro, Santa Maria, Rio de la Hacha , La Margarita , Cumama Benecuelas, nas “Tierras Firmes” americanas.

 RUDOLPHSTADT

Esta intervenção foi seguida, quase mensalmente, durante o ano, numa eficiente parceria com a União dos Escritores Angolanos, numa dezena de palestras, animada pelo Souindoula, e inserida no programa “Maka a Quarta-feira”, no quadro de efemérides de carácter nacional ou internacional.

Assim, vários temas, inéditos, ligados a instalação e a evolução no continente americano e no conjunto insular caribenho, dos cativos, originários do Reino do Kongo e da Colónia de Angola, a mais grande possessão continental portuguesa sobre a costa ocidental de África, foram discutidos tais como a análise comparativa entre a sedição do 4 de Fevereiro, em Luanda e os movimentos insurreccionais anti-esclavagistas além – Atlântico.

Foi, pela ocasião do Dia 23 de Agosto, Dia Internacional da Comemoração do Trafico Negreiro e da sua Abolição, apresentado uma explanação subordinada ao tema « Comemorarmos a abolição desta escravatura. Agostinho Neto, poeta da liberdade.”

Neste mesmo contexto, Simão Souindoula expôs, numa iniciativa da Fundação Eduardo Dos Santos, na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e na Universidade 11 de Novembro, em Cabinda, uma síntese que relevou o povoamento angolano, substancial, e particularmente, loango, das Antilhas Neerlandesas; consequência da dominação da região, nos meados do século XVII pelos holandeses, o controlo dos cabos “ Luyt Hoek” e “Boomtjes Hoek” e a organização das cidades de Rudolphstadt e Grantville.

Intervieram, igualmente, neste programa, a historiadora afro-brasileira, Solange Barbosa e o musicólogo afro-venezuelano, Jesus Alberto Garcia, Chefe da Missão Diplomática da Republica Bolivariana em Angola, que dissertaram, respectivamente, sobre a presença bantu no Vale de Paraiba e em Barlavento.

 

TENNESSE

Sob uma moderação do afro-paulista, Faustino Rodrigo, examinou-se a reapropriacão da figura da Rainha Nzinga pelos afro-norte-americanos , numa, entre outros suportes, o romance de Patricia C. McKissac, originaria de Nashville, no Tennesse, “Nzinga. Warrior Queen of Matamba”.

Sempre sobre a facilitação do brasileiro, foi discutido as tentativas de rupturas independentistas dos escravos “congos/angolas” na Nova Espanha, nos séculos XVI e XVII”.

Cuba, que recebeu uma mão-de-obra, forcada, num tráfico clandestino, massivo e tardio, foi objecto de duas palestras, uma que possibilitou o estudo da sintomática iconografia esclavagista produzida na ilha, e, a outra, que permitiu entrever a habla conga, como resultado da dinâmica de hibridação no castelhano , ocorrida na “Gran Plantacion”.

A herança das culturas bantu na América do sul foi revisitada durante o encontro subordinado ao tema “Hay muchos Angolas en Bolivia…”.

Na vertente internacional da sua acção, o especialista angolano participou, entre Fevereiro e Marco, na última reunião do Comité Cientifico que teve lugar em Bogotá e Cartagena de Índias, na Colômbia.

Uma das decisões tomadas durante o Comité a continuação e o fortalecimento da cooperação já iniciada entre o Projecto da Rota e o Triangulo de Benfica.

Um dos programas desta iniciativa de Luanda sul, a montagem de uma galeria sobre “As Rotas angolanas da Escravatura”, foi apresentado durante os trabalhos da IV Conferencia sobre o Museu Integrativo que se realizou na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo entre os meses de Junho e Julho.

Dias depois, Simao Souindoula tomou parte, em Kinshasa e em Nkamba, a “Jerusalem niger”, na Conferencia Internacional sobre Simon Kimbangu (1887-1951), subordinado ao tema “O homem, a sua obra e a sua contribuição ao processo de libertação do homem negro”.

REI DE MARACATU

O historiador angolano contribui, aí, com a disponibilização de uma trintena de estampas sobre as transacções das “pecas de Índias” no espaço do Atlântico, material que foi exposto no Centro Kimbanguista de Kasa Vubu.

Cooperou, igualmente, no mês de Maio, no colóquio internacional sobre África que teve lugar em Toronto (Canada).

Promovido pela Associação Canadiana de Estudos Africanos da Universidade de Iorque,  sob o lema “África Aqui, África Ali”, Souindoula submeteu, aí, o texto “Rei do Congo/Rei de Maracatu ou a forte dinâmica de imanência política africana no espaço atlântico“.

Colaborou no Colóquio Internacional sobre as culturas afro-americanas e a musica” , atelier que albergou Montevideu, entre os meses de Setembro e Outubro, com a comunicação intitulada : “Kantika vissungos ou a influência estruturante dos works songs na música afro-americana e afro – caribenha”.

Submeteu na Cimeira Mundial dos Afrodescendentes que se realizou em Las Ceibas, nas Honduras, um texto, ele abordou a importância do projecto iniciado pelo Triangulo Kanawa Mussulo, “As Rotas angolanos da Escravatura e o turismo de memória dos Afrodescendentes”.

 

O historiador das Ingombotas insistiu sobre as ofertas turísticas que podem propor a Iniciativa baseada no bairro luandense de Benfica aos afroamericanos e afrocaribenhos, cuja quase a metade reivindicam, invariavelmente, raízes congo/angola.

Redigiu e fez publicar na base do relevante discurso do Secretario Geral das Nações Unidas, o sul-coreano Ban Ki-Moon, distribuído pela ocasião da comemoração no dia 25 de Marco, Jornada Internacional das Vitimas da Escravatura e do Trafico Transatlântico, o documento “Um tríptico memorial para os Danados da Terra”.

YELE KU TONGA

Neste rewriting, Souindoula insistiu no facto, sintomático, dos povos negro-africanos, possuir, no fundo, uma terceira Jornada, anual, de comemoração da escravatura; posicionada antes do 23 de Agosto, Dia Internacional evocando o Trafico Negreiro e a sua Abolição e o 2 de Dezembro, Dia Internacional da Abolição da Escravatura.

Convidado pela Universidade de Porto, o perito da UNESCO propôs no Coloquio Internacional subordinado ao tema “ Trabalho forcado africano – As representações ideológicas da época colonial”, work – shop que se realizou, há dias, a reflexão sobre  Yele ku tonga ou a representação ideológica bantu do trabalho forçado em São Tomé e Príncipe “.

 

Deve-se indicar, como acções de divulgação científica, a publicação pelo prolífico historiador de várias resenhas, verdadeiramente, decisivas.

Assim, a obra do brasileiro Tarvisio José Martins “Quilombo do Campo Grande. A Historia de Minas que se devolve ao povo” que objecto da releitura intitulada “ A cartografia insurreccional anti-esclavagista e essencialmente angolana”.

 

Do notável atlas « Territorialidade Quilombola. Fotos e Mapas » publicado pelo enérgico geógrafo afro descendente Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, em Brasília, resultou a recensão “ INSURRECTOS CONGO/ANGOLA CONTRIBUIRAM A ABOLICAO DA ESCRAVATURA NO BRASIL”.

 

Quanto ao livrinho “Palmares, ontem e Hoje”, de Pedro Paulo Funari e Aline Vieira de Carvalho, reeditado no quadro da comemoração do dia 20 de Novembro, Jornada da Consciência Negra na Republica Federativa gerou o descobridor texto “ O ANGOLANO ZUMBI, ENTRE AS GRANDES FIGURAS DA HISTORIA DO BRASIL”.

 

Deve-se, no plano da comunicação audiovisual, internacional, apontar a relevante participação de Simão Souindoula no rico documentário realizado pela televisão brasileira Record pela ocasião da comemoração dos 123 anos da abolição da escravidão neste pais da América meridional.

O empenho de memorialista de Luanda sul nas actividades do Comité da “Rota”, durante o ano 2011, reforçou os conhecimentos de carácter histórico, linguístico e antropológico do impacto dos escravos extraídos do actual território angolano, no Novo Mundo, uma das regiões de África ocidental que sofreu, dolorosamente, durante séculos, do esvaziamento da sua forca de trabalho.

 

HISTORIA DE ANGOLA: O KIMBUNDU, UMA LINGUA EMBLEMATICA

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E o ponto de vista defendido pelo especialista do Congo da margem direita,   Jean de Dieu Nsonde,   na sua nova obra «  Falamos kimbundu. Língua de Angola » que lançara, em Paris,   em algumas semanas, na rua das Escolas, no Bairro Latino, as edições L’Harmattan.

 

Selado no bom formato de 140 paginas este estudo e o seguimento, lógico, dos  notáveis  trabalhos anteriores deste antigo estudante da rigorosa Escola Histórica de Brazzaville.

Com efeito, esse Doutor em história pré – colonial na Universidade de Paris 1, complete com esse último livro, as suas sólidas análises sobre a evolução religiosa, linguística e civilizacional do imenso conjunto federal Kongo e dos seus territórios aliados.

Nsonde, cuja tarefa foi facilita pela similaridade do kikongo e kimbundu, falares considerados, ate, recentemente, variantes de uma mesma língua, que estava, visivelmente, ainda veicular, em Loanda, no século XVI, marca o inicio da diferenciação, mais pronunciada,  entre os dois idiomas, gémeos, a partir da violente fundação da Colónia portuguesa de Angola nas terras do aliado Ndongo, território, igualmente, dos Nzinga.

E, e naturalmente que o kimbundu será arrastado pela dinâmica histórica e se apresenta, hoje, segundo o especialista congolês, actualmente Professor em função em Guadalupe, nas Antilhas francesas, como a língua angolana que, mais, fagocitou, retenções do português. E, será, também, esse idioma que, mais, dará,  à língua de Camões, os seus bantuismos.

E, e sobre o falar dos Ngola que será produzida, mais instrumentos linguísticos : dicionários, glossários, léxicos e gramáticas.

Apreendida, portanto, na pretensiosa colónia, a língua da « Warrior Queen of Matamba » será influenciada pela consolidacao militar deste território, ocupado de forca,   com as suas capacidades de activismo esclavagista e sua imparável primeira evangelização.

A epopeia do idioma dos Mondongos, escravos,   continuara no Golfo de Guiné e no além – Atlântico, num inseparável duo, genérico, congo/angola, com a produção de mesmos suportes de aprendizagem, sobretudo, religiosos ; participando, gradual e finalmente, a formação de crioulos  à base romana ou anglo-saxã.

O dialecto dos Ambundu será convidado, em Angola, pós -Berlim, na literatura com acentos, já, autonomistas.

Os poetas – nacionalistas utilizarão, antes e depois da Segunda Grande Guerra,   a sua impenetrável carga antropológica a fim de exprimir as suas esperanças de liberdade.

INTERCOMPREENSAO

Principal língua bantu em uso na definitiva capital da Colónia e do actual Estado,  independente, a fala da Feira de Cassanje será o que terá, dentre das línguas autóctones, a expansão a mais significativa no território ; consequência do seu papel de pivô nas trocas comerciais com o hinterland.

Outro ganho desta situação administrativa, o kimbundu será a língua, por excelência, da música urbana ; em suma da principal expressão musical nacional e do português particularizado do país.

Veredicto do historiador congolês de Mfwa, instalado nas Caraíbas, o kimbundu e o primeiro idioma bantu falado, hoje, na região de Luanda e nas zonas, rurais, adjacentes.

A sua importância se manterá graças a sua difusão no pacote de Ngola Yetu, a estacão radiofónica, especializada nas línguas nacionais, que emite, em ondas curtas, quer dizer, sobre o conjunto do território nacional ; atingindo, portanto, bem, as comunidades kimbundufonas do Bandundu, no Congo-Kinshasa.

A situação do jargão dos Kisamas e  Dembos perdurara graça, igualmente, a diversos factores de carácter cultural ou politico tais como a sua inclusão no sistema de ensino geral e de formação profissional, ou na administração dos municípios e comunas, assim que a realizacao das campanhas eleitorais.

Com as suas longas bandas de intercompreensão linguística atingindo, pelo menos, seis províncias do pais, a sua persistente colagem ao kikongo, ilustrada, pela reedição do dicionário do Padre Da Silva Maia, sobre as duas línguas aparentadas de Cannecatim, o kimbundu jogara, particularmente, bem, sem dúvida, ao lado dos outros idiomas do pais, o papel de língua bantu para a consolidação da nação angolana.

Por  

Simao SOUINDOULA

Historiador. Perito da UNESCO

“A Rainha Nzinga seduziu a França” (*)

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Por Simão Souindoula (Angola)


Resumo

Uma das figuras emblemáticas da historia de África e, sem duvida, a  « Dupla Soberana », que reinou no Ndongo, logo em 1623 e na  Matamba, a partir de 1630.

A reputação da tenaz « Ngola » chegara, rapidamente, a Europa ocidental, e, particularmente, no Hexágono.

Diversas iniciativas de natura científica, literária e artística serão, aí, notadas.

Essas consubstanciaram-se, do século  XVIII ate aos nossos dias,  pela edição de romances a carácter  histórico, a evocação da figura da temível “Kiluanje” em várias obras clássicas assim como a publicação de relações antigas e de crónicas biográficas.

E, e  Paris que dará, nos meados do século XIX à filha de Kenkela  – ka – Nkombe, um rosto.

Sensível a este património, o « Pais das Artes e Letras » apoiara, durante a última década, em quadros bilateral ou multilateral, diversas acções visando a um melhor conhecimento da extraordinária historia da  « Senhora de Santa Maria de Matamba »: organização de jornadas culturais,  colóquio internacional, conferências académicas, publicações, impressão de suportes têxteis, etc.

Abstract da conferencia do Historiador Simão Souindoula a ser presentada o día 13 de janeiro de 2012, em Luanda.

Simão Souindoula é angoleño. Historiador, perito da Unesco e Vice-presidente do Comité Cientifico Internacional da UNESCO, no qual desenvolve o projeto “a Rota do Escravo”